Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO Transpetro PSP-RH-2016.1 (nº 5)
Texto I
Homem no marDe minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar. Não há ninguém na praia, que resplende ao sol. O vento é nordeste, e vai tangendo, aqui e ali, no belo azul das águas, pequenas espumas que marcham alguns segundos e morrem, como bichos alegres e humildes; perto da terra a onda é verde.
Mas percebo um movimento em um ponto do mar; é um homem nadando. Ele nada a uma certa distância da praia, em braçadas pausadas e fortes; nada a favor das águas e do vento, e as pequenas espumas que nascem e somem parecem ir mais depressa do que ele. Justo: espumas são leves, não são feitas de nada, toda a sua substância é água e vento e luz, e o homem tem sua carne, seus ossos, seu coração, todo o seu corpo a transportar na água. Ele usa os músculos com uma calma energia; avança. Certamente não suspeita de que um desconhecido o vê e o admira porque ele está nadando na praia deserta. Não sei de onde vem essa admiração, mas encontro nesse homem uma nobreza calma, sinto-me solidário com ele, acompanho o seu esforço solitário como se ele estivesse cumprindo uma bela missão. Já nadou em minha presença uns trezentos metros; antes, não sei; duas vezes o perdi de vista, quando ele passou atrás das árvores, mas esperei com toda confiança que reaparecesse sua cabeça, e o movimento alternado de seus braços. Mais uns cinquenta metros, e o perderei de vista, pois um telhado o esconderá. Que ele nade bem esses cinquenta ou sessenta metros, isto me parece importante, é preciso que conserve a mesma batida de sua braçada, que eu o veja desaparecer assim como o vi aparecer, no mesmo rumo, no mesmo ritmo, forte, lento, sereno. Será perfeito; a imagem desse homem me faz bem.
É apenas a imagem de um homem, e eu não poderia saber sua idade, nem sua cor, nem os traços de sua cara. Estou solitário com ele, e espero que ele esteja comigo. [...]
Agora não sou mais responsável por ele; cumpri o meu dever, e ele cumpriu o seu. Admiro-o. Não consigo saber em que reside, para mim, a grandeza de sua tarefa; ele não estava fazendo nenhum gesto a favor de alguém, nem construindo algo de útil; mas certamente fazia uma coisa bela, e a fazia de um modo puro e viril.
Não desço para ir esperá-lo na praia e lhe apertar a mão; mas dou meu silencioso apoio, minha atenção e minha estima a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse homem, a esse correto irmão.
Janeiro, 1953
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No trecho do Texto I “Não há ninguém na praia, que resplende ao sol.” (ℓ. 2-3), o verbo haver está adequadamente empregado do ponto de vista da norma-padrão.
A frase em que o uso desse verbo apresenta a mesma adequação é:
- AHaviam bastantes pessoas na praia.
- BHaveria todos de se lançar ao mar sem medo.
- CHavia muitos perigos no oceano. (alternativa correta)
- DNo mar, devem haver mistérios insondáveis.
- EHá de existir pessoas que se admirem ainda com o mar.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O verbo haver no sentido de "existir" é impessoal: ele não tem sujeito, fica sempre na 3ª pessoa do singular e não varia para o plural. A pegadinha é que muita gente trata "haviam" como plural de "havia", mas isso é errado na norma-padrão quando o sentido é de existência.
- (A) Incorreta: "Haviam" está no plural, mas o verbo haver no sentido de existir é impessoal e deve ficar no singular: o correto seria "Havia bastantes pessoas na praia".
- (B) Incorreta: Aqui "haver" tem sentido de "ter de/obrigação" (haver de = ter de), então é pessoal e concorda com "todos": "Haveriam todos de se lançar..." (plural). A frase como está está errada.
- (C) Correta: "Havia" está no singular, concordando com o verbo impessoal no sentido de existir ("existiam muitos perigos"). É exatamente o mesmo uso do texto: "Não há ninguém" = "não existe ninguém".
- (D) Incorreta: "Devem haver" está errado: com verbo haver impessoal, o auxiliar "devem" também fica invariável no singular. O correto é "No mar, deve haver mistérios insondáveis".
- (E) Incorreta: "Há de existir" é uma locução redundante e com erro de concordância: o correto seria "Hão de existir pessoas..." (pois "pessoas" é plural e "existir" é o verbo principal, que concorda com o sujeito). Além disso, a construção é artificial e foge do uso impessoal simples.
Fonte: CESGRANRIO Transpetro PSP-RH-2016.1 Auditor(a) Júnior. Reproduzida para fins de estudo.