Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO Transpetro PSP-RH-2016.1 (nº 3)
Texto I
Homem no marDe minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar. Não há ninguém na praia, que resplende ao sol. O vento é nordeste, e vai tangendo, aqui e ali, no belo azul das águas, pequenas espumas que marcham alguns segundos e morrem, como bichos alegres e humildes; perto da terra a onda é verde.
Mas percebo um movimento em um ponto do mar; é um homem nadando. Ele nada a uma certa distância da praia, em braçadas pausadas e fortes; nada a favor das águas e do vento, e as pequenas espumas que nascem e somem parecem ir mais depressa do que ele. Justo: espumas são leves, não são feitas de nada, toda a sua substância é água e vento e luz, e o homem tem sua carne, seus ossos, seu coração, todo o seu corpo a transportar na água. Ele usa os músculos com uma calma energia; avança. Certamente não suspeita de que um desconhecido o vê e o admira porque ele está nadando na praia deserta. Não sei de onde vem essa admiração, mas encontro nesse homem uma nobreza calma, sinto-me solidário com ele, acompanho o seu esforço solitário como se ele estivesse cumprindo uma bela missão. Já nadou em minha presença uns trezentos metros; antes, não sei; duas vezes o perdi de vista, quando ele passou atrás das árvores, mas esperei com toda confiança que reaparecesse sua cabeça, e o movimento alternado de seus braços. Mais uns cinquenta metros, e o perderei de vista, pois um telhado o esconderá. Que ele nade bem esses cinquenta ou sessenta metros, isto me parece importante, é preciso que conserve a mesma batida de sua braçada, que eu o veja desaparecer assim como o vi aparecer, no mesmo rumo, no mesmo ritmo, forte, lento, sereno. Será perfeito; a imagem desse homem me faz bem.
É apenas a imagem de um homem, e eu não poderia saber sua idade, nem sua cor, nem os traços de sua cara. Estou solitário com ele, e espero que ele esteja comigo. [...]
Agora não sou mais responsável por ele; cumpri o meu dever, e ele cumpriu o seu. Admiro-o. Não consigo saber em que reside, para mim, a grandeza de sua tarefa; ele não estava fazendo nenhum gesto a favor de alguém, nem construindo algo de útil; mas certamente fazia uma coisa bela, e a fazia de um modo puro e viril.
Não desço para ir esperá-lo na praia e lhe apertar a mão; mas dou meu silencioso apoio, minha atenção e minha estima a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse homem, a esse correto irmão.
Janeiro, 1953
5 10 15 20 25 30 35 40 45 50
No Texto I, em “De minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar.” (ℓ. 1-2), caso o verbo em destaque fosse passado para a voz passiva pronominal, o resultado seria: “De minha varanda vê-se, entre árvores e telhado, o mar.” Essa transformação conferiria ao relato do narrador um tom de
- Amistério
- Bcrítica
- Cimpessoalidade (alternativa correta)
- Ddúvida
- Eresignação
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Voz passiva pronominal é quando usamos o pronome "se" (partícula apassivadora) junto com o verbo para indicar que alguém sofre a ação, sem precisar dizer quem pratica. O sujeito continua existindo, mas o foco sai de quem faz e vai para o que é feito. No caso, "vejo o mar" vira "vê-se o mar": o mar é visto, mas não dizemos quem vê, o que torna o relato impessoal, como se a observação valesse para qualquer um.
- (A) Incorreta: Mistério exigiria algo oculto ou inexplicável; a transformação apenas esconde o sujeito, não cria suspense ou segredo.
- (B) Incorreta: Crítica pressupõe um julgamento negativo; a frase original é descritiva e neutra, e a passiva mantém essa neutralidade.
- (C) Correta: A voz passiva pronominal omite o agente ("eu"), generalizando a ação e dando tom de impessoalidade ao relato, como se o narrador se afastasse da cena.
- (D) Incorreta: Dúvida viria de verbos como "talvez" ou "poder"; "vê-se" é uma constatação, não uma incerteza.
- (E) Incorreta: Resignação é aceitação de algo negativo; a passiva apenas muda o foco, não expressa conformidade ou tristeza.
Armadilha da banca: A pegadinha está em achar que "vê-se" soa mais formal ou literário e confundir isso com "mistério" (A). Mas o efeito real é esconder o sujeito "eu", e é exatamente essa omissão que gera a impessoalidade — não há nada de enigmático, apenas uma observação sem dono.
Fonte: CESGRANRIO Transpetro PSP-RH-2016.1 Auditor(a) Júnior. Reproduzida para fins de estudo.