Questão nº 4

Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO Transpetro PSP-RH-2016.1 (nº 4)

CESGRANRIO2016Auditor(a) JúniorLíngua Portuguesa
Gabarito: Bver comentário ↓

Texto I
Homem no mar

De minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar. Não há ninguém na praia, que resplende ao sol. O vento é nordeste, e vai tangendo, aqui e ali, no belo azul das águas, pequenas espumas que marcham alguns segundos e morrem, como bichos alegres e humildes; perto da terra a onda é verde.

Mas percebo um movimento em um ponto do mar; é um homem nadando. Ele nada a uma certa distância da praia, em braçadas pausadas e fortes; nada a favor das águas e do vento, e as pequenas espumas que nascem e somem parecem ir mais depressa do que ele. Justo: espumas são leves, não são feitas de nada, toda a sua substância é água e vento e luz, e o homem tem sua carne, seus ossos, seu coração, todo o seu corpo a transportar na água. Ele usa os músculos com uma calma energia; avança. Certamente não suspeita de que um desconhecido o vê e o admira porque ele está nadando na praia deserta. Não sei de onde vem essa admiração, mas encontro nesse homem uma nobreza calma, sinto-me solidário com ele, acompanho o seu esforço solitário como se ele estivesse cumprindo uma bela missão. Já nadou em minha presença uns trezentos metros; antes, não sei; duas vezes o perdi de vista, quando ele passou atrás das árvores, mas esperei com toda confiança que reaparecesse sua cabeça, e o movimento alternado de seus braços. Mais uns cinquenta metros, e o perderei de vista, pois um telhado o esconderá. Que ele nade bem esses cinquenta ou sessenta metros, isto me parece importante, é preciso que conserve a mesma batida de sua braçada, que eu o veja desaparecer assim como o vi aparecer, no mesmo rumo, no mesmo ritmo, forte, lento, sereno. Será perfeito; a imagem desse homem me faz bem.

É apenas a imagem de um homem, e eu não poderia saber sua idade, nem sua cor, nem os traços de sua cara. Estou solitário com ele, e espero que ele esteja comigo. [...]

Agora não sou mais responsável por ele; cumpri o meu dever, e ele cumpriu o seu. Admiro-o. Não consigo saber em que reside, para mim, a grandeza de sua tarefa; ele não estava fazendo nenhum gesto a favor de alguém, nem construindo algo de útil; mas certamente fazia uma coisa bela, e a fazia de um modo puro e viril.

Não desço para ir esperá-lo na praia e lhe apertar a mão; mas dou meu silencioso apoio, minha atenção e minha estima a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse homem, a esse correto irmão.

Janeiro, 1953

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No Texto I, ao descrever o mar, o narrador-personagem o percebe tão vivo, que acaba por atribuir a ele características humanas.
A oração que exemplifica essa afirmativa é

Resposta comentada

Gabarito Alternativa B

Personificação (ou prosopopeia) é a figura de linguagem que atribui ações, sentimentos ou características humanas a seres inanimados, animais ou ideias. Aqui, o narrador "humaniza" as espumas do mar, dando a elas a capacidade de "marchar" e "morrer", como se fossem seres vivos.

  • (A) Incorreta: "que resplende ao sol" descreve o brilho da praia, uma qualidade física natural, sem qualquer ação ou característica humana.
  • (B) Correta: "marcham" (andar em passo ordenado) e "morrem" (fim da vida) são verbos típicos de seres vivos, aplicados às espumas — é a personificação clássica.
  • (C) Incorreta: "que um desconhecido o vê" refere-se ao homem nadando, que é um ser humano real, não uma personificação do mar.
  • (D) Incorreta: "Que ele nade bem" é um desejo do narrador sobre o nadador (pessoa real), não atribui característica humana a algo não humano.
  • (E) Incorreta: "que ele esteja comigo" expressa a solidariedade do narrador com o nadador, novamente sobre um humano, sem personificar o mar.

Armadilha da banca: A letra A é o distrator mais tentador, pois "resplende ao sol" parece poético e "vivo", mas é apenas uma qualidade visual (luz refletida), não uma ação humana. A banca quer que você confunda "descrição vívida" com "personificação" — lembre-se: personificação exige ação ou sentimento humano, não apenas beleza ou brilho.

Fonte: CESGRANRIO Transpetro PSP-RH-2016.1 Auditor(a) Júnior. Reproduzida para fins de estudo.

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