Questão nº 8
Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO BNB 01/2024 (nº 8)
A Bela e a Fera
Um dos desejos de minha infância foi habitar um palácio como o da Bela e da Fera, evidente que sem a Fera. Tinha tudo do bom e do melhor naquele palácio. As luzes se acendiam à passagem da moça, a mesa estava posta, havia solidão e silêncio, ninguém enchia o saco dela, a Fera providenciava tudo e ainda fazia o favor de não aparecer, não queria assustá-la.
1
Eu imaginava um palácio mais modesto, seria a minha própria casa, apenas com um acréscimo: em todas as paredes haveria umas torneirinhas que despejariam guaraná no meu copo. Eu era louco por guaraná, ficava triste quando tomava um, confinado numa garrafa banal, que mal dava para encher um copo.
2
Queria mais, e muito, daí que sonhava com torneiras em todas as paredes, bastava abri-las e o guaraná geladinho jorraria para matar a minha sede e me tontear de prazer.
3
A injúria do tempo, somada ao desgaste dos anos, sepultou o delírio, mas fui fiel a ele, não tive outros pela vida afora. Esqueci a Bela e a Fera, o Palácio Encantado, as torneirinhas jorrando guaraná.
4
Eis que, deixando de ler historinhas infantis, de repente descobri um sucedâneo, bem verdade que às avessas: a internet. Ela não me deslumbra como os contos de Grimm e Perrault; pelo contrário, me aterroriza, mas tem alguma coisa de encantado. Toda vez que abro a caixa postal, é como se abrisse a torneirinha daquele palácio que a memória não esqueceu, mas a vida demoliu.
5
Não recebo o guaraná mágico para matar minha sede e me tontear de prazer. Recebo mensagens propondo regimes de emagrecimento, oferecem-me terrenos que não quero comprar e viagens que não pretendo fazer. Vez ou outra, pinga uma gota de afeto – mal dá para encher o copo e embromar a sede.
6
Ouvi dizer que a internet está na Idade da Pedra, mais um pouco ela poderá me dar mais e melhor. Um dia abrirei o computador e terei o guaraná que não mereço.
7
No trecho do parágrafo 5 “Eis que, deixando de ler historinhas infantis, de repente descobri um sucedâneo, bem verdade que às avessas: a internet”, o vocábulo “sucedâneo” pode ser substituído, sem prejuízo de seu sentido no texto, por
- Aimitação
- Bocupação
- Csubstituto (alternativa correta)
- Ddivertimento
- Eacontecimento
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Conceito-chave: “Sucedâneo” é um termo formal que significa aquilo que substitui outra coisa, ocupando o seu lugar, mesmo que não seja idêntico ao original. No texto, a internet é um sucedâneo do palácio encantado: não é igual, mas cumpre um papel parecido (abrir torneiras mágicas).
- (A) Incorreta: “Imitação” sugere cópia falsa e intencional, mas o texto diz que a internet é um “sucedâneo às avessas”, ou seja, algo que substitui com diferenças, não uma réplica.
- (B) Incorreta: “Ocupação” é algo que preenche o tempo ou um cargo, não tem relação com a ideia de tomar o lugar de outra coisa no sentido de substituição.
- (C) Correta: “Substituto” é o sinônimo exato de “sucedâneo”: a internet substitui o palácio imaginário, oferecendo uma experiência análoga (abrir a caixa postal = abrir a torneirinha), mesmo que decepcionante.
- (D) Incorreta: “Divertimento” é uma consequência possível, mas não o sentido central: o autor não diz que a internet é uma diversão, e sim que ela ocupa o lugar do antigo sonho.
- (E) Incorreta: “Acontecimento” é um fato ou evento, e o vocábulo “sucedâneo” não tem relação com algo que ocorre, mas com algo que substitui.
Armadilha da banca: A pegadinha está na alternativa (A), pois “imitação” parece próxima de “substituto”, mas a banca explora a diferença sutil: “imitar” é copiar a aparência, enquanto “substituir” é exercer a função no lugar do original. No texto, a internet não imita o palácio (não tem luzes nem guaraná), ela apenas toma o lugar dele na vida adulta do autor — por isso só “substituto” preserva o sentido exato.
Fonte: CESGRANRIO BNB 01/2024 Analista Bancário 1 (Caderno Gabarito 1). Reproduzida para fins de estudo.