Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO BNB 01/2024 (nº 5)
A Bela e a Fera
Um dos desejos de minha infância foi habitar um palácio como o da Bela e da Fera, evidente que sem a Fera. Tinha tudo do bom e do melhor naquele palácio. As luzes se acendiam à passagem da moça, a mesa estava posta, havia solidão e silêncio, ninguém enchia o saco dela, a Fera providenciava tudo e ainda fazia o favor de não aparecer, não queria assustá-la.
1
Eu imaginava um palácio mais modesto, seria a minha própria casa, apenas com um acréscimo: em todas as paredes haveria umas torneirinhas que despejariam guaraná no meu copo. Eu era louco por guaraná, ficava triste quando tomava um, confinado numa garrafa banal, que mal dava para encher um copo.
2
Queria mais, e muito, daí que sonhava com torneiras em todas as paredes, bastava abri-las e o guaraná geladinho jorraria para matar a minha sede e me tontear de prazer.
3
A injúria do tempo, somada ao desgaste dos anos, sepultou o delírio, mas fui fiel a ele, não tive outros pela vida afora. Esqueci a Bela e a Fera, o Palácio Encantado, as torneirinhas jorrando guaraná.
4
Eis que, deixando de ler historinhas infantis, de repente descobri um sucedâneo, bem verdade que às avessas: a internet. Ela não me deslumbra como os contos de Grimm e Perrault; pelo contrário, me aterroriza, mas tem alguma coisa de encantado. Toda vez que abro a caixa postal, é como se abrisse a torneirinha daquele palácio que a memória não esqueceu, mas a vida demoliu.
5
Não recebo o guaraná mágico para matar minha sede e me tontear de prazer. Recebo mensagens propondo regimes de emagrecimento, oferecem-me terrenos que não quero comprar e viagens que não pretendo fazer. Vez ou outra, pinga uma gota de afeto – mal dá para encher o copo e embromar a sede.
6
Ouvi dizer que a internet está na Idade da Pedra, mais um pouco ela poderá me dar mais e melhor. Um dia abrirei o computador e terei o guaraná que não mereço.
7
No trecho do parágrafo 2 “em todas as paredes haveria umas torneirinhas que despejariam guaraná no meu copo.”, as formas verbais destacadas em negrito expressam a noção de
- Adever
- Bdesejo (alternativa correta)
- Ccerteza
- Dobrigação
- Enecessidade
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
O futuro do pretérito (haveria, despejariam) é o tempo verbal usado para expressar hipóteses, desejos ou possibilidades que dependem de uma condição. No trecho, o eu-lírico está imaginando um palácio ideal, algo que ele desejava que existisse, não algo real ou certo.
- (A) Incorreta: O futuro do pretérito não expressa "dever" (obrigação moral), que seria marcado por verbos como "deveria" ou "teria que", indicando uma ação necessária por regra ou consciência.
- (B) Correta: As formas "haveria" e "despejariam" descrevem uma projeção imaginária do que o narrador desejava ter em sua casa. O tempo verbal (futuro do pretérito) é o clássico para expressar desejo ou sonho irrealizável, como em "eu gostaria de viajar".
- (C) Incorreta: "Certeza" seria expressa pelo futuro do presente (haverá, despejarão), que indica fato certo ou promessa, não uma fantasia.
- (D) Incorreta: "Obrigação" seria marcada por locuções como "ter que" ou "dever" no presente (ex.: "tem que haver"), indicando imposição, não um anseio pessoal.
- (E) Incorreta: "Necessidade" seria expressa por verbos como "precisar" ou "ser necessário" (ex.: "é preciso que haja"), que indicam algo indispensável, e não um capricho ou desejo.
Armadilha da banca: O distrator mais tentador é a letra C (certeza), pois muitos alunos confundem o futuro do pretérito com o futuro do presente. A pegadinha está em achar que "haveria" é uma promessa de que algo vai acontecer, mas o contexto de imaginação e fantasia (palácio, torneiras mágicas) anula qualquer ideia de certeza. O segredo é olhar o contexto: se a frase fala de um sonho, é desejo; se fala de um fato futuro, é certeza.
Fonte: CESGRANRIO BNB 01/2024 Analista Bancário 1 (Caderno Gabarito 1). Reproduzida para fins de estudo.