Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO BNB 01/2024 (nº 4)
A Bela e a Fera
Um dos desejos de minha infância foi habitar um palácio como o da Bela e da Fera, evidente que sem a Fera. Tinha tudo do bom e do melhor naquele palácio. As luzes se acendiam à passagem da moça, a mesa estava posta, havia solidão e silêncio, ninguém enchia o saco dela, a Fera providenciava tudo e ainda fazia o favor de não aparecer, não queria assustá-la.
1
Eu imaginava um palácio mais modesto, seria a minha própria casa, apenas com um acréscimo: em todas as paredes haveria umas torneirinhas que despejariam guaraná no meu copo. Eu era louco por guaraná, ficava triste quando tomava um, confinado numa garrafa banal, que mal dava para encher um copo.
2
Queria mais, e muito, daí que sonhava com torneiras em todas as paredes, bastava abri-las e o guaraná geladinho jorraria para matar a minha sede e me tontear de prazer.
3
A injúria do tempo, somada ao desgaste dos anos, sepultou o delírio, mas fui fiel a ele, não tive outros pela vida afora. Esqueci a Bela e a Fera, o Palácio Encantado, as torneirinhas jorrando guaraná.
4
Eis que, deixando de ler historinhas infantis, de repente descobri um sucedâneo, bem verdade que às avessas: a internet. Ela não me deslumbra como os contos de Grimm e Perrault; pelo contrário, me aterroriza, mas tem alguma coisa de encantado. Toda vez que abro a caixa postal, é como se abrisse a torneirinha daquele palácio que a memória não esqueceu, mas a vida demoliu.
5
Não recebo o guaraná mágico para matar minha sede e me tontear de prazer. Recebo mensagens propondo regimes de emagrecimento, oferecem-me terrenos que não quero comprar e viagens que não pretendo fazer. Vez ou outra, pinga uma gota de afeto – mal dá para encher o copo e embromar a sede.
6
Ouvi dizer que a internet está na Idade da Pedra, mais um pouco ela poderá me dar mais e melhor. Um dia abrirei o computador e terei o guaraná que não mereço.
7
No fragmento do parágrafo 2 “Eu era louco por guaraná, ficava triste quando tomava um”, o trecho destacado em negrito apresenta, em relação à informação explicitada na primeira oração, uma noção de
- Amodo
- Btempo
- Coposição (alternativa correta)
- Dintensidade
- Ecomparação
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Coesão textual é o “cimento” que liga as ideias de um texto. Aqui, a banca quer que você perceba qual relação de sentido a segunda oração (“ficava triste...”) tem com a primeira (“Eu era louco por guaraná”). Ser “louco por” algo significa gostar muito, e “ficar triste” ao consumir é o contrário do que se esperaria de quem gosta tanto – por isso é uma oposição (quebra de expectativa).
- (A) Incorreta: “Modo” seria se o trecho indicasse como ele ficava triste (ex.: “ficava triste silenciosamente”), o que não ocorre.
- (B) Incorreta: “Tempo” seria se houvesse uma marca de quando (ex.: “quando tomava um, ficava triste”), mas a relação entre as orações não é de localização temporal, e sim de contraste.
- (C) Correta: A primeira oração afirma um gosto intenso (“louco por”); a segunda apresenta um efeito contrário a esse gosto (tristeza ao tomar). Essa quebra de expectativa é a noção de oposição (adversidade), típica de conectivos como “mas”, “porém”, “no entanto” – aqui, implícita pela vírgula.
- (D) Incorreta: “Intensidade” seria se o trecho reforçasse o quanto ele gostava (ex.: “era muito louco”), mas “ficava triste” não intensifica o gosto; contradiz.
- (E) Incorreta: “Comparação” exigiria um termo comparativo (ex.: “como quem toma guaraná”), o que não há; há apenas contraste entre duas ideias.
Fonte: CESGRANRIO BNB 01/2024 Analista Bancário 1 (Caderno Gabarito 1). Reproduzida para fins de estudo.