Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO BNB 01/2024 (nº 6)
A Bela e a Fera
Um dos desejos de minha infância foi habitar um palácio como o da Bela e da Fera, evidente que sem a Fera. Tinha tudo do bom e do melhor naquele palácio. As luzes se acendiam à passagem da moça, a mesa estava posta, havia solidão e silêncio, ninguém enchia o saco dela, a Fera providenciava tudo e ainda fazia o favor de não aparecer, não queria assustá-la.
1
Eu imaginava um palácio mais modesto, seria a minha própria casa, apenas com um acréscimo: em todas as paredes haveria umas torneirinhas que despejariam guaraná no meu copo. Eu era louco por guaraná, ficava triste quando tomava um, confinado numa garrafa banal, que mal dava para encher um copo.
2
Queria mais, e muito, daí que sonhava com torneiras em todas as paredes, bastava abri-las e o guaraná geladinho jorraria para matar a minha sede e me tontear de prazer.
3
A injúria do tempo, somada ao desgaste dos anos, sepultou o delírio, mas fui fiel a ele, não tive outros pela vida afora. Esqueci a Bela e a Fera, o Palácio Encantado, as torneirinhas jorrando guaraná.
4
Eis que, deixando de ler historinhas infantis, de repente descobri um sucedâneo, bem verdade que às avessas: a internet. Ela não me deslumbra como os contos de Grimm e Perrault; pelo contrário, me aterroriza, mas tem alguma coisa de encantado. Toda vez que abro a caixa postal, é como se abrisse a torneirinha daquele palácio que a memória não esqueceu, mas a vida demoliu.
5
Não recebo o guaraná mágico para matar minha sede e me tontear de prazer. Recebo mensagens propondo regimes de emagrecimento, oferecem-me terrenos que não quero comprar e viagens que não pretendo fazer. Vez ou outra, pinga uma gota de afeto – mal dá para encher o copo e embromar a sede.
6
Ouvi dizer que a internet está na Idade da Pedra, mais um pouco ela poderá me dar mais e melhor. Um dia abrirei o computador e terei o guaraná que não mereço.
7
O termo “delírio”, empregado no parágrafo 4, retoma a ideia de
- Aadorar histórias infantis.
- Bter tudo do bom e do melhor.
- Cgostar muito de refrigerante.
- Djorrar guaraná de torneiras. (alternativa correta)
- Ehaver solidão e silêncio no palácio.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Conceito-chave: Coesão referencial é o “fio” que liga uma palavra a outra já dita no texto, evitando repetição. Para achar o referente, você volta no texto e pergunta: “esse termo está no lugar de quê?”. No caso, “delírio” retoma a fantasia descrita logo antes, no parágrafo 3.
- (A) Incorreta: “Adorar histórias infantis” é o contexto geral, mas não é o conteúdo específico do “delírio”, que é a fantasia do guaraná.
- (B) Incorreta: “Ter tudo do bom e do melhor” é uma expressão genérica do palácio, não a ideia exata retomada por “delírio”.
- (C) Incorreta: “Gostar muito de refrigerante” é a motivação do delírio, mas o termo “delírio” se refere à fantasia concreta, não ao gosto em si.
- (D) Correta: “Delírio” retoma diretamente a frase anterior: “sonhava com torneiras em todas as paredes, bastava abri-las e o guaraná geladinho jorraria” — ou seja, a ideia de jorrar guaraná de torneiras. A pegadinha aqui é que “gostar de refrigerante” (C) parece certa, mas a banca quer o referente exato, não a causa.
- (E) Incorreta: “Solidão e silêncio” é característica do palácio da Bela, não do delírio do autor.
Fonte: CESGRANRIO BNB 01/2024 Analista Bancário 1 (Caderno Gabarito 1). Reproduzida para fins de estudo.