Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO BNB 01/2024 (nº 3)
A Bela e a Fera
Um dos desejos de minha infância foi habitar um palácio como o da Bela e da Fera, evidente que sem a Fera. Tinha tudo do bom e do melhor naquele palácio. As luzes se acendiam à passagem da moça, a mesa estava posta, havia solidão e silêncio, ninguém enchia o saco dela, a Fera providenciava tudo e ainda fazia o favor de não aparecer, não queria assustá-la.
1
Eu imaginava um palácio mais modesto, seria a minha própria casa, apenas com um acréscimo: em todas as paredes haveria umas torneirinhas que despejariam guaraná no meu copo. Eu era louco por guaraná, ficava triste quando tomava um, confinado numa garrafa banal, que mal dava para encher um copo.
2
Queria mais, e muito, daí que sonhava com torneiras em todas as paredes, bastava abri-las e o guaraná geladinho jorraria para matar a minha sede e me tontear de prazer.
3
A injúria do tempo, somada ao desgaste dos anos, sepultou o delírio, mas fui fiel a ele, não tive outros pela vida afora. Esqueci a Bela e a Fera, o Palácio Encantado, as torneirinhas jorrando guaraná.
4
Eis que, deixando de ler historinhas infantis, de repente descobri um sucedâneo, bem verdade que às avessas: a internet. Ela não me deslumbra como os contos de Grimm e Perrault; pelo contrário, me aterroriza, mas tem alguma coisa de encantado. Toda vez que abro a caixa postal, é como se abrisse a torneirinha daquele palácio que a memória não esqueceu, mas a vida demoliu.
5
Não recebo o guaraná mágico para matar minha sede e me tontear de prazer. Recebo mensagens propondo regimes de emagrecimento, oferecem-me terrenos que não quero comprar e viagens que não pretendo fazer. Vez ou outra, pinga uma gota de afeto – mal dá para encher o copo e embromar a sede.
6
Ouvi dizer que a internet está na Idade da Pedra, mais um pouco ela poderá me dar mais e melhor. Um dia abrirei o computador e terei o guaraná que não mereço.
7
Essa crônica é marcada pelo uso da linguagem informal, o que pode ser comprovado no seguinte trecho:
- A“Eu imaginava um palácio mais modesto” (parágrafo 2)
- B“Eu era louco por guaraná” (parágrafo 2) (alternativa correta)
- C“A injúria do tempo, somada ao desgaste dos anos, sepultou o delírio” (parágrafo 4)
- D“Ela não me deslumbra como os contos de Grimm e Perrault” (parágrafo 5)
- E“Recebo mensagens propondo regimes de emagrecimento” (parágrafo 6)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Linguagem informal é aquela usada no dia a dia, sem preocupação com regras rígidas, cheia de expressões coloquiais, gírias e subjetividade. O cronista usa esse registro para criar proximidade com o leitor, como numa conversa.
- (A) Incorreta: A frase é neutra e descritiva, sem marcas de coloquialidade ou expressão típica da fala cotidiana.
- (B) Correta: A expressão "louco por" é uma coloquialidade (gíria/expressão popular) que significa "apaixonado por" ou "viciado em", típica da linguagem informal e afetiva do texto.
- (C) Incorreta: O trecho é formal e literário, com metáfora ("injúria do tempo") e vocabulário rebuscado ("sepultou"), o oposto do informal.
- (D) Incorreta: A frase é culta e referencial, citando autores clássicos (Grimm e Perrault) sem marcas de oralidade ou gírias.
- (E) Incorreta: A frase é informativa e objetiva, descrevendo ações comuns sem expressões coloquiais ou subjetivas.
Armadilha da banca: O distrator mais tentador é a letra C, pois "injúria do tempo" parece "diferente" e o aluno confunde linguagem figurada com informalidade. Mas metáfora e vocabulário sofisticado são marcas de linguagem formal/literária, não de coloquialismo. O informal é a expressão do cotidiano, como "louco por".
Fonte: CESGRANRIO BNB 01/2024 Analista Bancário 1 (Caderno Gabarito 1). Reproduzida para fins de estudo.