Questão nº 9
Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO BASA 01/2021 (nº 9)
Medo da eternidade
Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
— Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.
— Como não acaba? — Parei um instante na rua, perplexa.
— Não acaba nunca, e pronto. Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual eu já começara a me dar conta.
Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
— E agora que é que eu faço? — Perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.
— Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
Perder a eternidade? Nunca. O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
— Acabou-se o docinho. E agora? — Agora mastigue para sempre. Assustei-me, não sabia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
— Olha só o que me aconteceu! — Disse eu em fingidos espanto e tristeza. — Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
— Já lhe disse, repetiu minha irmã, que ele não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.
A frase que apresenta todas as vírgulas corretamente empregadas, de acordo com a norma-padrão da língua portuguesa, é:
- AA menina que descobriu o chicle, também experimentou, a possibilidade da eternidade.
- BSão consideradas maravilhosas, aquelas histórias de príncipes e fadas, que vivem eternamente.
- CAproveitou, a textura, o sabor docinho do chicle, e ainda o comparou com o mundo impossível da eternidade.
- DMuitas crianças, quando se deparam com o desconhecido, passam a fantasiar sobre ele na tentativa de entendê-lo. (alternativa correta)
- EQuando as crianças sonham, em serem príncipes, princesas e fadas, elas fantasiam sobre viverem felizes para sempre.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Vírgula separa intercalações — quando uma expressão ou oração entra no meio da frase como um comentário, ela deve ficar entre vírgulas. É o caso de “quando se deparam com o desconhecido” na letra D: se você retirar esse trecho, a frase continua fazendo sentido (“Muitas crianças passam a fantasiar sobre ele”), então ele é intercalado e precisa das duas vírgulas.
- (A) Incorreta: A vírgula após “chicle” separa o sujeito (“A menina que descobriu o chicle”) do verbo (“também experimentou”), o que é proibido — sujeito e verbo não podem ser separados por vírgula.
- (B) Incorreta: A primeira vírgula (“maravilhosas, aquelas histórias”) separa o predicativo do sujeito, criando uma pausa indevida; o correto seria “São consideradas maravilhosas aquelas histórias de príncipes e fadas, que vivem eternamente” (a segunda vírgula, antes de “que”, está certa, pois inicia oração explicativa).
- (C) Incorreta: As vírgulas após “Aproveitou” e “textura” isolam o objeto direto (“a textura, o sabor docinho do chicle”) do verbo, o que é erro — não se separa verbo de seu complemento com vírgula.
- (D) Correta: A oração “quando se deparam com o desconhecido” está intercalada entre sujeito e verbo principal, funcionando como adjunto adverbial deslocado; por isso, exige vírgulas antes e depois. É o padrão de intercalação.
- (E) Incorreta: A vírgula após “sonham” separa o verbo de seu complemento (“em serem príncipes, princesas e fadas”); o correto seria “Quando as crianças sonham em serem príncipes, princesas e fadas, elas fantasiam...”. A vírgula antes de “elas” está correta, mas a primeira é o erro. Armadilha da banca: o distrator mais tentador é a letra E, porque ela tem duas vírgulas e parece “equilibrada”; o aluno vê a pausa natural após “sonham” e acha que é correta, mas a norma exige que o verbo “sonhar” fique colado ao seu complemento “em serem...”. A banca explora exatamente essa pausa intuitiva de leitura para enganar quem não domina a regra de não separar verbo de complemento.
Fonte: CESGRANRIO BASA 01/2021 Técnico Científico - Área de Formação: Tecnologia da Informação. Reproduzida para fins de estudo.