Questão nº 1
Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO BASA 01/2021 (nº 1)
Medo da eternidade
Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
— Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.
— Como não acaba? — Parei um instante na rua, perplexa.
— Não acaba nunca, e pronto. Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual eu já começara a me dar conta.
Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
— E agora que é que eu faço? — Perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.
— Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
Perder a eternidade? Nunca. O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
— Acabou-se o docinho. E agora? — Agora mastigue para sempre. Assustei-me, não sabia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
— Olha só o que me aconteceu! — Disse eu em fingidos espanto e tristeza. — Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
— Já lhe disse, repetiu minha irmã, que ele não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.
No texto, a narradora suscita a reflexão acerca da eternidade a partir da
- Amentira que pregara na chegada à escola.
- Blimitação que a falta de dinheiro lhe impunha.
- Cdescoberta de que o chicle não acabaria nunca. (alternativa correta)
- Drelação afetiva que havia entre a ela e sua irmã.
- Esatisfação que o gosto adocicado do chicle proporcionava.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Conceito-chave: A questão pede para identificar o motivo central que desencadeia a reflexão da narradora sobre a eternidade. Não é sobre o que ela fez depois (mentira), nem sobre sentimentos secundários (vergonha, satisfação), mas sim sobre o fato gerador da angústia: a informação de que o chicle nunca acabaria.
- (A) Incorreta: A mentira foi a consequência do medo, não a causa da reflexão; ela só mentiu porque já estava aflita com a ideia de eternidade.
- (B) Incorreta: A falta de dinheiro é apenas um detalhe do contexto inicial (ela não podia comprar), mas não é o que a faz pensar sobre o infinito.
- (C) Correta: É exatamente a descoberta de que o chicle "não acaba nunca" que a transporta para o "reino de histórias" e gera o "medo" diante da ideia de eternidade — todo o texto gira em torno dessa revelação.
- (D) Incorreta: A relação com a irmã existe, mas é um pano de fundo; a irmã é apenas a mensageira da informação que causa o conflito.
- (E) Incorreta: O texto diz explicitamente que o gosto "não podia dizer que era ótimo" e que ela não estava gostando — a satisfação é negada, não é o gatilho da reflexão.
Armadilha da banca (no distrator mais tentador, a letra A): A banca tenta fazer você focar no desfecho dramático (a mentira no portão da escola), que é a parte mais "memorável" da narrativa. Porém, a mentira é apenas a reação ao problema. A pergunta é sobre o que suscita (dá origem) à reflexão — e isso acontece antes, no momento exato em que a irmã diz "esta bala nunca se acaba". Ler a pergunta com atenção ao verbo "suscitar" (causar) evita cair nessa pegadinha.
Fonte: CESGRANRIO BASA 01/2021 Técnico Científico - Área de Formação: Tecnologia da Informação. Reproduzida para fins de estudo.