Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO BASA 01/2021 (nº 6)
Medo da eternidade
Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
— Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.
— Como não acaba? — Parei um instante na rua, perplexa.
— Não acaba nunca, e pronto. Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual eu já começara a me dar conta.
Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
— E agora que é que eu faço? — Perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.
— Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
Perder a eternidade? Nunca. O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
— Acabou-se o docinho. E agora? — Agora mastigue para sempre. Assustei-me, não sabia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
— Olha só o que me aconteceu! — Disse eu em fingidos espanto e tristeza. — Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
— Já lhe disse, repetiu minha irmã, que ele não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.
No texto, foram empregadas as palavras aí (l. 31) e ótimo (l. 35), ambas acentuadas graficamente. Duas outras palavras corretamente acentuadas pelos mesmos motivos que aí e ótimo são, respectivamente,
- Ajuíz e ébano
- BIcaraí e rítmo
- Ccaquís e incrédulo
- Dpaís e sonâmbulo (alternativa correta)
- Eabacaxí e econômia
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Acentuação gráfica depende da posição da sílaba tônica (a mais forte) e das regras de hiato (encontro de duas vogais em sílabas separadas) e proparoxítonas (sílaba tônica na antepenúltima). A palavra aí é acentuada porque forma um hiato com a vogal tônica "i" (a-í), e ótimo é acentuada por ser proparoxítona (ó-ti-mo).
- (A) Incorreta: "juíz" é erro de grafia (o correto é "juiz", sem acento, pois o "i" não forma hiato com "u" em sílaba tônica fechada por "z"); "ébano" é proparoxítona, mas a primeira palavra não segue a regra de "aí".
- (B) Incorreta: "Icaraí" tem acento por hiato (i-í), mas "rítmo" é erro de grafia (o correto é "ritmo", proparoxítona real, mas a grafia errada invalida a opção).
- (C) Incorreta: "caquís" é acento por hiato (ca-qu-í), mas "incrédulo" é proparoxítona; porém a banca considera "caquís" como plural de "caqui" (fruta), que não leva acento (o correto é "caquis"), então a grafia está errada.
- (D) Correta: "país" tem acento por hiato (pa-ís), igual a "aí"; "sonâmbulo" é proparoxítona (so-nâm-bu-lo), igual a "ótimo". Ambas seguem exatamente as mesmas regras das palavras do texto.
- (E) Incorreta: "abacaxí" é erro de grafia (o correto é "abacaxi", sem acento, pois o "i" tônico não está em hiato com vogal anterior); "econômia" é erro de grafia (o correto é "economia", paroxítona sem acento).
Armadilha do distrator mais tentador (B): a banca usa "Icaraí" (correto, hiato) e "rítmo" (errado, pois o correto é "ritmo", sem acento). O aluno que só olha a primeira palavra marca a letra B, mas a segunda palavra está com grafia incorreta — a pegadinha é misturar uma palavra certa com uma errada para testar se você confere todas as palavras da alternativa.
Fonte: CESGRANRIO BASA 01/2021 Técnico Científico - Área de Formação: Tecnologia da Informação. Reproduzida para fins de estudo.