Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO BASA 01/2021 (nº 3)
Medo da eternidade
Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
— Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.
— Como não acaba? — Parei um instante na rua, perplexa.
— Não acaba nunca, e pronto. Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual eu já começara a me dar conta.
Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
— E agora que é que eu faço? — Perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.
— Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
Perder a eternidade? Nunca. O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
— Acabou-se o docinho. E agora? — Agora mastigue para sempre. Assustei-me, não sabia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
— Olha só o que me aconteceu! — Disse eu em fingidos espanto e tristeza. — Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
— Já lhe disse, repetiu minha irmã, que ele não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.
No trecho "Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!" (l. 54-55), o segundo período apresenta, em relação à informação explicitada no primeiro, uma noção de
- Acausa (alternativa correta)
- Bcondição
- Cconsequência
- Dmodo
- Etempo
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Conceito-chave: Relação de causa é quando um fato é o motivo que origina outro. Aqui, a impossibilidade de mastigar (“não posso mastigar mais”) é a causa que explica a consequência (“a bala acabou”). Ou seja: o segundo período justifica o primeiro.
- (A) Correta: O segundo período (“a bala acabou”) é a causa que explica o primeiro (“não posso mastigar mais”): se a bala acabou, então não posso mastigá-la. A relação é de causa e efeito, com o efeito no primeiro período e a causa no segundo.
- (B) Incorreta: Não há condição (se... então), pois o segundo período não estabelece uma hipótese para o primeiro acontecer; ele apenas justifica o fato já ocorrido.
- (C) Incorreta: Não é consequência, pois a consequência seria o resultado do que foi dito antes. Aqui, o segundo período é o motivo, não o resultado. A ordem está invertida: a “bala acabou” é a causa, e “não posso mastigar” é a consequência — mas a banca pede a noção do segundo em relação ao primeiro, e o segundo é a causa.
- (D) Incorreta: Não expressa modo (como algo é feito), pois não há advérbio ou locução indicando maneira, jeito ou forma de realizar a ação.
- (E) Incorreta: Não indica tempo (quando), pois não há marcação de anterioridade, simultaneidade ou posterioridade entre os dois períodos. A relação é lógica, não cronológica.
Armadilha da banca (distrator mais tentador): A letra (C) Consequência é a pegadinha clássica. O aluno lê “não posso mastigar mais” e pensa que isso é o efeito de “a bala acabou”. Mas a banca pergunta qual noção o segundo período tem em relação ao primeiro. O segundo período (“a bala acabou”) é o motivo do primeiro, ou seja, a causa. Se a pergunta fosse “o primeiro em relação ao segundo”, aí sim seria consequência. Fique atento à ordem da pergunta: ela sempre indica qual período é a base da análise.
Fonte: CESGRANRIO BASA 01/2021 Técnico Científico - Área de Formação: Tecnologia da Informação. Reproduzida para fins de estudo.