Questão nº 4

Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO BASA 01/2021 (nº 4)

CESGRANRIO2021Técnico Científico - Área de Formação: Tecnologia da InformaçãoLíngua Portuguesa
Gabarito: Dver comentário ↓

Medo da eternidade

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

— Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.

— Como não acaba? — Parei um instante na rua, perplexa.

— Não acaba nunca, e pronto. Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual eu já começara a me dar conta.

Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

— E agora que é que eu faço? — Perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.

— Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

Perder a eternidade? Nunca. O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

— Acabou-se o docinho. E agora? — Agora mastigue para sempre. Assustei-me, não sabia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

— Olha só o que me aconteceu! — Disse eu em fingidos espanto e tristeza. — Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

— Já lhe disse, repetiu minha irmã, que ele não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.


Assim como no trecho "E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola." (l. 35-36), a colocação do pronome destacado respeita a norma-padrão da língua portuguesa, em:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa D

Conceito-chave: A norma-padrão exige próclise (pronome antes do verbo) quando há uma palavra atrativa antes do verbo, como advérbios (“nunca”, “jamais”, “poucos” – pronome indefinido) ou pronomes relativos. Sem palavra atrativa, o pronome pode ficar depois do verbo (ênclise), mas nunca no início de frase.

  • (A) Incorreta: “Pediria-lhes” está em ênclise, mas a frase começa com verbo, o que é proibido pela norma-padrão (não se inicia frase com pronome oblíquo átono depois do verbo).
  • (B) Incorreta: “leva-nos” está em ênclise, mas há um advérbio de negação (“não”) antes do verbo, que atrai o pronome para antes: “não nos leva”.
  • (C) Incorreta: “experimenta-se” está em ênclise, mas há um pronome relativo (“que”) antes do verbo, que atrai o pronome: “que se experimenta”.
  • (D) Correta: “Poucos se impressionam” – “poucos” é um pronome indefinido, que funciona como palavra atrativa, obrigando a próclise. Exatamente o mesmo caso do trecho do texto: “encaminhávamo-nos” (ênclise) é correto porque não há palavra atrativa antes, mas aqui “poucos” atrai o “se”.
  • (E) Incorreta: “Nos perguntamos” – pronome no início de frase é proibido na norma-padrão; o correto seria “Perguntamo-nos” (ênclise), pois não há palavra atrativa.

Armadilha da banca: A alternativa (B) é a mais tentadora, pois “não” é um atrativo clássico, mas a banca inverteu a ordem: em vez de “não nos leva”, escreveu “não leva-nos”, que viola a regra. O aluno que decora “não atrai pronome” marca errado, pois a atração exige que o pronome fique antes do verbo, não depois.

Fonte: CESGRANRIO BASA 01/2021 Técnico Científico - Área de Formação: Tecnologia da Informação. Reproduzida para fins de estudo.

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