Questão nº 17
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE TCU 25 AUFC 2025 (nº 17)
Suposta esta primeira verdade, certa e infalível; a segunda cousa que suponho com a mesma certeza é que a restituição do alheio sob pena da salvação não só obriga aos súditos e particulares, senão também aos cetros e às coroas. Cuidam, ou devem cuidar alguns príncipes que, assim como são superiores a todos, assim são senhores de tudo, e é engano. A lei da restituição é lei natural e lei divina. Enquanto lei natural, obriga aos reis, porque a natureza fez iguais a todos; e enquanto lei divina, também os obriga, porque Deus, que os fez maiores que os outros, é maior que eles. Esta verdade só tem contra si a prática e o uso. Mas por parte deste mesmo uso argumenta assim São Tomás, o qual é hoje o meu doutor, e nestas matérias o de maior autoridade: a rapina, ou roubo, é tomar o alheio violentamente contra vontade de seu dono: “os príncipes tomam muitas cousas a seus vassalos violentamente, e contra sua vontade; logo, parece que o roubo é lícito em alguns casos, porque se dissermos que os príncipes pecam nisto, todos eles, ou quase todos se condenariam”. Oh que terrível e temerosa consequência e quão digna de que a considerem profundamente os príncipes, e os que têm parte em suas resoluções e conselhos! Responde ao seu argumento o mesmo Doutor angélico (...). Respondo (diz S. Tomás) que, se os príncipes tiram dos súbditos o que segundo justiça lhes é devido para conservação do bem comum, ainda que o executem com violência, não é rapina ou roubo. Porém, se os príncipes tomarem por violência o que se lhes não deve, é rapina e latrocínio. Donde se segue que estão obrigados à restituição como os ladrões, e que pecam tanto mais gravemente que os mesmos ladrões, quanto mais perigoso e mais comum o dano com que ofendem a justiça pública, de que eles estão postos por defensores.
Julgue os itens a seguir, referentes a ideias e aspectos gramaticais do texto precedente.
No quarto período, o termo “maiores”, em “que os fez maiores”, é uma qualificação atribuída a “os”, forma pronominal cujo referente é “reis”, no trecho “obriga aos reis”.
Resposta comentada
Referenciação pronominal é o mecanismo pelo qual um pronome retoma (ou antecipa) um termo já dito ou que será dito no texto, criando coesão. Aqui, o pronome "os" (em "os fez") é um objeto direto que retoma "reis", e "maiores" é o predicativo do objeto — ou seja, uma qualidade atribuída a esse objeto.
- Correta: Certo. O trecho "Deus, que os fez maiores que os outros" equivale a "Deus fez os reis maiores que os outros": "os" = reis (referente), "maiores" = qualificação desse pronome.
Fica de olho: a banca costuma inverter a direção da referência — por exemplo, dizer que "os" retoma "príncipes" (que aparece depois) ou que "maiores" se refere a "Deus". A pegadinha clássica é trocar o referente (o termo retomado) pelo antecedente errado, ou confundir "os" (objeto) com "lhes" (que seria "aos reis"). Sempre localize o verbo ("fez") e pergunte: "fez quem? fez o quê?" — a resposta é o pronome e seu referente.
Fonte: CEBRASPE TCU 25 AUFC 2025 Auditor Federal de Controle Externo - Área de Controle Externo / Orientação: Auditoria de Tecnologia da Informação. Reproduzida para fins de estudo.