Questão nº 14

Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE TCU 25 AUFC 2025 (nº 14)

CEBRASPE2025Auditor Federal de Controle Externo - Área de Controle Externo / Orientação: Auditoria de Tecnologia da InformaçãoLíngua Portuguesa

Suposta esta primeira verdade, certa e infalível; a segunda cousa que suponho com a mesma certeza é que a restituição do alheio sob pena da salvação não só obriga aos súditos e particulares, senão também aos cetros e às coroas. Cuidam, ou devem cuidar alguns príncipes que, assim como são superiores a todos, assim são senhores de tudo, e é engano. A lei da restituição é lei natural e lei divina. Enquanto lei natural, obriga aos reis, porque a natureza fez iguais a todos; e enquanto lei divina, também os obriga, porque Deus, que os fez maiores que os outros, é maior que eles. Esta verdade só tem contra si a prática e o uso. Mas por parte deste mesmo uso argumenta assim São Tomás, o qual é hoje o meu doutor, e nestas matérias o de maior autoridade: a rapina, ou roubo, é tomar o alheio violentamente contra vontade de seu dono: “os príncipes tomam muitas cousas a seus vassalos violentamente, e contra sua vontade; logo, parece que o roubo é lícito em alguns casos, porque se dissermos que os príncipes pecam nisto, todos eles, ou quase todos se condenariam”. Oh que terrível e temerosa consequência e quão digna de que a considerem profundamente os príncipes, e os que têm parte em suas resoluções e conselhos! Responde ao seu argumento o mesmo Doutor angélico (...). Respondo (diz S. Tomás) que, se os príncipes tiram dos súbditos o que segundo justiça lhes é devido para conservação do bem comum, ainda que o executem com violência, não é rapina ou roubo. Porém, se os príncipes tomarem por violência o que se lhes não deve, é rapina e latrocínio. Donde se segue que estão obrigados à restituição como os ladrões, e que pecam tanto mais gravemente que os mesmos ladrões, quanto mais perigoso e mais comum o dano com que ofendem a justiça pública, de que eles estão postos por defensores.

Julgue os itens a seguir, referentes a ideias e aspectos gramaticais do texto precedente.


No quarto período, a supressão das vírgulas que isolam a oração “que os fez maiores que os outros” prejudicaria a coerência das ideias que sustentam o texto, baseadas na fé católica.

Resposta comentada

Conceito-chave: A vírgula que isola uma oração explicativa (aquela que acrescenta uma informação sobre o termo anterior, como um comentário) tem função de ênfase e clareza. Suprimi-la transforma a informação em algo essencial para o sentido, mudando a relação lógica entre as ideias — no caso, a explicação de por que Deus é maior que os príncipes deixaria de ser um detalhe e viraria parte central do argumento, confundindo a base teológica do texto.

  • Correta: Certo. A oração “que os fez maiores que os outros” é explicativa (explica que Deus é maior porque os criou). Sem as vírgulas, ela viraria restritiva, sugerindo que existem outros “deuses” que também fizeram príncipes maiores — o que contradiz a fé católica (monoteísmo) e quebra a lógica de que só Deus está acima dos reis.

Fica de olho: A banca adora trocar “explicativa” por “restritiva” — se a oração for essencial para identificar o termo (ex.: “os príncipes que tomam o alheio pecam”), aí as vírgulas são proibidas. Aqui, a oração é um comentário do autor sobre Deus, não uma restrição; suprimir as vírgulas não apenas muda a gramática, mas altera o sentido teológico, tornando o texto incoerente com a doutrina citada (Deus único e superior).

Fonte: CEBRASPE TCU 25 AUFC 2025 Auditor Federal de Controle Externo - Área de Controle Externo / Orientação: Auditoria de Tecnologia da Informação. Reproduzida para fins de estudo.

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