Questão nº 11
Questão de Língua Portuguesa · FGV TJAL 2018 (nº 11)
TEXTO – Sem tolerância com o preconceito
Átila Alexandre Nunes, O Globo, 23/01/2018 (adaptado)
Diante do número de casos de preconceito explícito e agressões, somos levados ao questionamento se nossa sociedade corre o risco de estar tornando-se irracionalmente intolerante. Ou, quem sabe, intolerantemente irracional. Intolerância é a palavra do momento. Da religião à orientação sexual, da cor da pele às convicções políticas.
O tamanho desse problema rompeu fronteiras e torna-se uma praga mundial. Líderes políticos, em conluio com líderes religiosos, ignoram os conceitos de moral, ética, direitos, deveres e justiça. As redes sociais assumiram um papel cruel nesse sistema. Se deveriam servir para mostrar indignação, mostram, muitas vezes, um preconceito medieval.
No campo da religiosidade, o fanatismo se mostra cada dia mais presente no Rio de Janeiro. No último ano, foram registradas dezenas de casos de intolerância religiosa por meio da Secretaria de Estado de Direitos Humanos. Um número ainda subnotificado, pois, muitas ocorrências que deveriam ser registradas como “intolerância religiosa” são consideradas brigas de vizinhos.
A subnotificação desses casos é um dos maiores entraves na luta contra a intolerância religiosa. O registro incorreto e a descrença de grande parte da população na punição a esse tipo de crime colaboram para maquiar o retrato dos ataques promovidos pelo fanatismo religioso em nossa sociedade. A perseguição às minorias religiosas está cada vez mais organizada com braços políticos e até de milícias armadas como o tráfico de drogas.
No último ano recebemos denúncias de ataques contra religiões de matriz africana praticados pelo tráfico de drogas, que não só destruíam terreiros, como também proibiam a realização de cultos em determinada região, segundo o desejo do chefe da facção local.
Não podemos regredir a um estado confessional. A luta de agora pela liberdade religiosa é um dever de todos para garantir o cumprimento da Constituição Federal. Quando uma pessoa de fé é humilhada, agredida ou discriminada devido à sua crença, ela tem seus direitos humanos e constitucionais violados. Hoje, fala-se muito sobre intolerância religiosa, mas, muito mais do que sermos tolerantes, precisamos aprender a respeitar a individualidade e as crenças de cada um.
Até porque, nessa toada, a intolerância irracional ganha terreno, e nós vamos ficando cada vez mais irracionalmente intolerantes com aquilo que não deveríamos ser. Numa sociedade onde o preconceito se mostra cada dia mais presente, a única saída é a incorporação da cultura do respeito. Preconceito não se tolera, se combate.
“Da religião à orientação sexual, da cor da pele às convicções políticas”.
Esse é um dos períodos do texto construídos sem verbo; a reescritura adequada desse segmento em que acrescentássemos verbo e conector é:
- AA intolerância ocorre da religião à orientação sexual do mesmo modo que da cor da pele às convicções políticas; (alternativa correta)
- BHá intolerância na religião e na orientação sexual à proporção que também ocorre na cor da pele e nas convicções políticas;
- CExiste intolerância na religião e na orientação sexual embora exista também na cor da pele e nas convicções políticas;
- DSomos intolerantes no que diz respeito à religião e à orientação sexual, mas não na cor da pele e nas convicções políticas;
- EOcorre intolerância ora da religião à orientação sexual, ora da cor da pele às convicções políticas.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Conceito-chave: A reescrita deve manter o sentido original da frase, que é uma enumeração de campos onde a intolerância acontece (religião, orientação sexual, cor da pele, convicções políticas), sem introduzir ideias novas como oposição, alternância ou restrição. O conector precisa apenas comparar ou adicionar essas ideias, e o verbo deve concordar com o sujeito.
- (A) Correta: Mantém o sentido de abrangência (“da... à...”) e usa o conector comparativo “do mesmo modo que”, que apenas soma os dois pares de exemplos sem criar oposição ou hierarquia. O verbo “ocorre” está bem empregado e concorda com “intolerância”.
- (B) Incorreta: A armadilha está no conector “à proporção que”, que indica proporcionalidade (uma coisa aumenta na medida em que a outra aumenta), o que não existe no original. Além disso, “na religião” e “na cor da pele” soam como se a intolerância estivesse dentro dessas coisas, e não direcionada a elas.
- (C) Incorreta: O conector “embora” introduz uma concessão (ideia de contraste/oposição), mas o original apenas enumera. A frase fica ilógica: “existe intolerância na religião... embora exista também na cor da pele” sugere que uma coisa contradiz a outra, o que não é o caso.
- (D) Incorreta: O “mas” cria uma oposição que não existe no texto, e o “não” nega categoricamente a intolerância na cor da pele e nas convicções políticas, o que contradiz o sentido original (que diz que ela ocorre em todos esses campos).
- (E) Incorreta: O “ora... ora...” indica alternância (uma coisa acontece em um momento, depois outra), como se a intolerância fosse mutável ou intermitente. O original é uma lista simultânea de alvos, não uma sequência temporal.
Fonte: FGV TJAL 2018 Analista Judiciário - Área Judiciária (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.