Questão nº 51
Questão de Antropologia · FGV TJ-MS 2024 (nº 51)
A Resolução CNJ Nº 287, publicada em 2019, estabelece procedimentos para o tratamento das pessoas indígenas acusadas, rés, condenadas ou privadas de liberdade, e dá diretrizes para assegurar os direitos dessa população no âmbito criminal do Poder Judiciário. Nesse texto lemos o seguinte trecho:
“Art. 7º A responsabilização de pessoas indígenas deverá considerar os mecanismos próprios da comunidade indígena a que pertença a pessoa acusada, mediante consulta prévia.
Parágrafo único. A autoridade judicial poderá adotar ou homologar práticas de resolução de conflitos e de responsabilização em conformidade com costumes e normas da própria comunidade indígena, nos termos do Art. 57 da Lei nº 6.001/73 (Estatuto do Índio).”
O artigo citado está em consonância com o seguinte tema amplamente debatido no campo das relações entre antropologia e direito:
- Aantropologia reversa;
- Bpluralismo jurídico; (alternativa correta)
- Cantropologia simétrica;
- Dparticularismo histórico;
- Edireito penal.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Pluralismo jurídico é a ideia de que, em um mesmo território, podem coexistir e ser reconhecidos múltiplos sistemas de direito, não apenas o direito estatal. Isso significa que, além das leis criadas pelo Estado, outras comunidades (como as indígenas) podem ter suas próprias normas e formas de resolver conflitos, que são consideradas válidas.
(A) Incorreta: Antropologia reversa é uma abordagem crítica que propõe que os povos estudados pela antropologia estudem os antropólogos ou a sociedade ocidental, ou ainda uma autoanálise da disciplina. Não se relaciona com o reconhecimento de sistemas jurídicos.
(B) Correta: O texto da Resolução CNJ Nº 287, ao determinar que a responsabilização de pessoas indígenas considere os "mecanismos próprios da comunidade indígena" e permita a adoção ou homologação de "práticas de resolução de conflitos e de responsabilização em conformidade com costumes e normas da própria comunidade indígena", reconhece explicitamente a validade e a coexistência de um sistema jurídico não estatal (o indígena) ao lado do sistema jurídico estatal. Isso é a essência do pluralismo jurídico.
(C) Incorreta: Antropologia simétrica, proposta por autores como Bruno Latour, busca tratar de forma equivalente e sem hierarquia diferentes formas de conhecimento e atores (humanos e não-humanos) em uma análise, o que não se aplica diretamente ao reconhecimento de sistemas jurídicos distintos.
(D) Incorreta: Particularismo histórico, teoria desenvolvida por Franz Boas, defende que cada cultura possui uma história única e deve ser compreendida em seus próprios termos, sem generalizações ou estágios evolutivos universais. Embora a existência de culturas indígenas únicas seja o pano de fundo para a necessidade do pluralismo jurídico, o conceito de particularismo histórico em si não descreve a coexistência e reconhecimento de sistemas jurídicos, mas sim a abordagem metodológica para estudar culturas. A armadilha aqui é que, por se tratar de povos indígenas com culturas únicas, pode-se pensar em particularismo histórico, mas a questão foca na interação e reconhecimento de sistemas legais, que é o pluralismo jurídico.
(E) Incorreta: Direito penal é o ramo do direito público que define crimes e suas respectivas penas. Embora a resolução trate de procedimentos no âmbito criminal, o conceito que ela exemplifica ao reconhecer os mecanismos jurídicos indígenas não é o direito penal em si, mas sim a coexistência de diferentes sistemas jurídicos dentro desse âmbito.
Fonte: FGV TJ-MS 2024 Técnico de Nível Superior - Antropólogo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.