Questão nº 19
Questão de Língua Portuguesa · FGV PSS TJ-BA 2023 (nº 19)
Texto 1 – Estudo revela novo alvo para busca de terapias contra doença de Parkinson [fragmento]
Experimentos com camundongos feitos na USP mostraram que a micróglia, um tipo de célula imunológica presente no sistema nervoso central, ajuda a limitar a perda de neurônios
Agência Fapesp
Estudo conduzido no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) revelou um possível mecanismo protetor contra a doença de Parkinson.
Em camundongos, foi observado que a micróglia, um tipo de célula imunológica do sistema nervoso que compõe a chamada glia – conjunto diversificado de células que dá suporte ao funcionamento dos neurônios – pode limitar a perda de capacidade motora e a morte neuronal.
Todos os testes foram conduzidos em animais que receberam 6-hidroxidopamina, uma toxina indutora de sintomas semelhantes aos da doença de Parkinson, aplicada diretamente no cérebro. Antes, metade dos animais teve as micróglias praticamente eliminadas por uma substância, chamada PLX5622. O grupo que manteve essas células registrou perdas menos significativas de neurônios e de movimento quando comparado aos demais roedores.
"Esses resultados sugerem um possível alvo para o tratamento da doença no futuro, quando descobrirmos mecanismos capazes de ativar a micróglia de maneira benéfica", disse a doutoranda Carolina Parga à assessoria de imprensa do ICB-USP. Ela é primeira autora de um artigo publicado no Journal of Neuroimmunology. [...]
A descoberta contradiz o que os próprios pesquisadores do ICB e outros estudiosos da área haviam visto anteriormente sobre essas células. Até então acreditava-se o contrário, pois, quando elas eram bloqueadas por fármacos, os sintomas do Parkinson eram mitigados.
"A hipótese mais provável para explicar essa diferença nos resultados é a atuação dos dois fenótipos da micróglia, algo já identificado anteriormente na literatura científica. Uma característica, a positiva, que protege contra a perda neuronal, talvez se manifeste no início da doença, e a outra característica, a negativa, que impulsiona essa perda neuronal, vai predominando à medida que a doença vai evoluindo; o mesmo pode ocorrer em outras doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer e algumas formas de epilepsia", detalha Luiz Roberto Giorgetti de Britto, coordenador do estudo pelo Laboratório de Neurobiologia Celular do ICB. [...]
"Isso reforça a importância de desenvolvermos formas de diagnósticos mais assertivas para as doenças neurodegenerativas, para assim chegarmos a soluções terapêuticas. Pois trata-se de doenças que podem estar ativas durante décadas antes do diagnóstico, que em geral se dá só após a manifestação de sintomas, mas sendo mitigadas pela micróglia e outros mecanismos", complementa.
MUDANÇAS GENÉTICAS
No estudo também foram identificados dois genes que podem estar relacionados à doença de Parkinson. Esses genes apresentavam menor expressão apenas nos grupos em que as micróglias foram eliminadas.
"São dois genes relacionados à transmissão por dopamina [substância que influencia nossas emoções, aprendizado e locomoção, além de outras funções] entre alguns grupos de neurônios do sistema nervoso, o que sugere que a micróglia pode ser responsável pela modulação da expressão de genes que atuam nesses processos. Isso ajuda a explicar como a sua ausência resulta na perda de neurônios, o que causa a diminuição de dopamina, o fator responsável pelas alterações motoras", aponta Parga.
Esse conhecimento é promissor principalmente para a pequena parcela de casos de Parkinson e Alzheimer que tem causas genéticas, um total de 5% a 7% dos diagnósticos. "Conhecendo melhor o comportamento desses genes talvez possamos, no futuro, antecipar o diagnóstico da doença, além de propor terapias que consistem na manipulação deles", afirma Britto.
O Laboratório de Neurobiologia Celular agora se aprofunda nos resultados obtidos e nas hipóteses levantadas e também estuda as possíveis implicações da micróglia em modelos animais da doença de Alzheimer.
“O grupo que manteve essas células registrou perdas menos significativas de neurônios e de movimento [...]” (Texto 1, 3º parágrafo)
Dentre as alternativas a seguir, a única em que a conversão da oração sublinhada para a voz passiva NÃO acarreta desvio em relação à norma padrão é:
- AO grupo no qual essas células foram mantidas registrou menos perdas significativas de neurônios e de movimento. (alternativa correta)
- BO grupo em que essas células havia sido mantidas registrou menos perdas significativas de neurônios e de movimento.
- CO grupo em que essas células se manteram registrou menos perdas significativas de neurônios e de movimento.
- DO grupo em que mantiveram-se essas células registrou menos perdas significativas de neurônios e de movimento.
- EO grupo que essas células foram mantidas registrou menos perdas significativas de neurônios e de movimento.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
A voz passiva ocorre quando o sujeito da oração sofre a ação verbal, em vez de praticá-la. Em português, ela é frequentemente formada com o verbo "ser" (ou "estar") mais o particípio do verbo principal.
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Original: "O grupo que manteve essas células registrou perdas..."
- A oração sublinhada está na voz ativa: "que" (referindo-se a "o grupo") é o sujeito que pratica a ação de "manter" sobre "essas células".
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Para converter para a voz passiva: O objeto direto ("essas células") se torna o sujeito da passiva, e o verbo "manter" é conjugado na forma "ser + particípio". O sujeito da ativa ("que"/"o grupo") pode se tornar o agente da passiva (introduzido por "por" ou "pelo") ou ser omitido. A oração relativa que modifica "grupo" também precisa ser reestruturada.
(A) Correta: "O grupo no qual essas células foram mantidas registrou menos perdas significativas de neurônios e de movimento." Esta alternativa está correta porque:
* "no qual" (em + o qual) é o pronome relativo adequado para retomar "grupo" no sentido de "no grupo" ou "em que grupo".
* "essas células foram mantidas" é a construção correta da voz passiva analítica (verbo "ser" no pretérito perfeito do indicativo, "foram", + particípio do verbo principal, "mantidas"), concordando corretamente com o novo sujeito "essas células".
(B) Incorreta: "O grupo em que essas células havia sido mantidas registrou menos perdas significativas de neurônios e de movimento." O erro está na concordância verbal. O verbo auxiliar "haver" (ou "ter") deveria concordar com o sujeito "essas células" (plural), então o correto seria "haviam sido mantidas" ou "tinham sido mantidas". Além disso, o tempo verbal (pretérito mais-que-perfeito composto) não corresponde diretamente ao pretérito perfeito simples ("manteve") da oração original.
(C) Incorreta: "O grupo em que essas células se manteram registrou menos perdas significativas de neurônios e de movimento." A expressão "se manteram" indica uma ação reflexiva (as células se mantiveram a si mesmas) ou pronominal, e não a voz passiva. A voz passiva com "se" (sintética) seria "mantiveram-se essas células", onde "essas células" seria o sujeito paciente. No entanto, "se manteram" altera o sentido da frase original, que implica que o grupo manteve as células.
(D) Incorreta: "O grupo em que mantiveram-se essas células registrou menos perdas significativas de neurônios e de movimento." Embora "mantiveram-se essas células" seja uma construção de voz passiva sintética (onde "essas células" é o sujeito paciente e o verbo concorda com ele), a colocação pronominal está incorreta. Em orações introduzidas por pronomes relativos como "em que", a próclise (pronome antes do verbo) é a forma padrão. O correto seria "em que se mantiveram essas células". A ênclise ("mantiveram-se") após "em que" é considerada um desvio da norma culta.
(E) Incorreta: "O grupo que essas células foram mantidas registrou menos perdas significativas de neurônios e de movimento." O pronome relativo "que" está empregado de forma inadequada. Para retomar "grupo" no sentido de "no grupo" ou "em que grupo", seria necessário usar uma preposição antes do pronome relativo, como "em que" ou "no qual". A forma "que" isolada não estabelece a relação correta de lugar ou circunstância com o antecedente "grupo".
Fonte: FGV PSS TJ-BA 2023 Juiz Leigo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.