Questão nº 18
Questão de Língua Portuguesa · FGV PSS TJ-BA 2023 (nº 18)
Texto 1 – Estudo revela novo alvo para busca de terapias contra doença de Parkinson [fragmento]
Experimentos com camundongos feitos na USP mostraram que a micróglia, um tipo de célula imunológica presente no sistema nervoso central, ajuda a limitar a perda de neurônios
Agência Fapesp
Estudo conduzido no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) revelou um possível mecanismo protetor contra a doença de Parkinson.
Em camundongos, foi observado que a micróglia, um tipo de célula imunológica do sistema nervoso que compõe a chamada glia – conjunto diversificado de células que dá suporte ao funcionamento dos neurônios – pode limitar a perda de capacidade motora e a morte neuronal.
Todos os testes foram conduzidos em animais que receberam 6-hidroxidopamina, uma toxina indutora de sintomas semelhantes aos da doença de Parkinson, aplicada diretamente no cérebro. Antes, metade dos animais teve as micróglias praticamente eliminadas por uma substância, chamada PLX5622. O grupo que manteve essas células registrou perdas menos significativas de neurônios e de movimento quando comparado aos demais roedores.
"Esses resultados sugerem um possível alvo para o tratamento da doença no futuro, quando descobrirmos mecanismos capazes de ativar a micróglia de maneira benéfica", disse a doutoranda Carolina Parga à assessoria de imprensa do ICB-USP. Ela é primeira autora de um artigo publicado no Journal of Neuroimmunology. [...]
A descoberta contradiz o que os próprios pesquisadores do ICB e outros estudiosos da área haviam visto anteriormente sobre essas células. Até então acreditava-se o contrário, pois, quando elas eram bloqueadas por fármacos, os sintomas do Parkinson eram mitigados.
"A hipótese mais provável para explicar essa diferença nos resultados é a atuação dos dois fenótipos da micróglia, algo já identificado anteriormente na literatura científica. Uma característica, a positiva, que protege contra a perda neuronal, talvez se manifeste no início da doença, e a outra característica, a negativa, que impulsiona essa perda neuronal, vai predominando à medida que a doença vai evoluindo; o mesmo pode ocorrer em outras doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer e algumas formas de epilepsia", detalha Luiz Roberto Giorgetti de Britto, coordenador do estudo pelo Laboratório de Neurobiologia Celular do ICB. [...]
"Isso reforça a importância de desenvolvermos formas de diagnósticos mais assertivas para as doenças neurodegenerativas, para assim chegarmos a soluções terapêuticas. Pois trata-se de doenças que podem estar ativas durante décadas antes do diagnóstico, que em geral se dá só após a manifestação de sintomas, mas sendo mitigadas pela micróglia e outros mecanismos", complementa.
MUDANÇAS GENÉTICAS
No estudo também foram identificados dois genes que podem estar relacionados à doença de Parkinson. Esses genes apresentavam menor expressão apenas nos grupos em que as micróglias foram eliminadas.
"São dois genes relacionados à transmissão por dopamina [substância que influencia nossas emoções, aprendizado e locomoção, além de outras funções] entre alguns grupos de neurônios do sistema nervoso, o que sugere que a micróglia pode ser responsável pela modulação da expressão de genes que atuam nesses processos. Isso ajuda a explicar como a sua ausência resulta na perda de neurônios, o que causa a diminuição de dopamina, o fator responsável pelas alterações motoras", aponta Parga.
Esse conhecimento é promissor principalmente para a pequena parcela de casos de Parkinson e Alzheimer que tem causas genéticas, um total de 5% a 7% dos diagnósticos. "Conhecendo melhor o comportamento desses genes talvez possamos, no futuro, antecipar o diagnóstico da doença, além de propor terapias que consistem na manipulação deles", afirma Britto.
O Laboratório de Neurobiologia Celular agora se aprofunda nos resultados obtidos e nas hipóteses levantadas e também estuda as possíveis implicações da micróglia em modelos animais da doença de Alzheimer.
“Esses genes apresentavam menor expressão apenas nos grupos em que as micróglias foram eliminadas.” (Texto 1, 8º parágrafo)
A única reescritura da passagem acima em que se verifica desvio em relação à norma padrão é:
- AEsses genes apresentavam menor expressão apenas nos grupos em que havia menos micróglias.
- BEsses genes apresentavam menor expressão apenas nos grupos em que se eliminou as micróglias. (alternativa correta)
- CEsses genes apresentavam menor expressão apenas nos grupos cujos animais tinham menos micróglias.
- DEsses genes apresentavam menor expressão apenas nos grupos nos quais as micróglias foram eliminadas.
- EEsses genes apresentavam menor expressão apenas nos grupos em que se procedeu à eliminação das micróglias.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
A concordância verbal é a relação de número e pessoa entre o verbo e seu sujeito. Quando o pronome "se" acompanha um verbo, ele pode ser uma partícula apassivadora (com verbos transitivos diretos, transformando o objeto em sujeito paciente e exigindo concordância) ou um índice de indeterminação do sujeito (com verbos transitivos indiretos ou intransitivos, mantendo o verbo na 3ª pessoa do singular).
- A) Incorreta: O verbo "haver" no sentido de "existir" é impessoal, ou seja, não possui sujeito e deve permanecer sempre na 3ª pessoa do singular ("havia"), independentemente do termo que o acompanha. A frase está gramaticalmente correta.
- (B) Correta: O verbo "eliminar" é transitivo direto (quem elimina, elimina algo). Quando acompanhado do pronome "se" e seguido de um objeto direto explícito ("as micróglias"), o "se" funciona como partícula apassivadora. Nesse caso, "as micróglias" torna-se o sujeito paciente, e o verbo deve concordar com ele. Como "micróglias" está no plural, o correto seria "se eliminaram as micróglias". A forma "se eliminou" (singular) com sujeito paciente no plural ("as micróglias") constitui um desvio da norma padrão de concordância verbal. A armadilha da banca reside na confusão comum entre a partícula apassivadora e o índice de indeterminação do sujeito, levando à aplicação incorreta da regra de singularidade do verbo.
- C) Incorreta: O pronome relativo "cujos" concorda em gênero e número com o substantivo que o segue ("animais", plural). O verbo "tinham" (plural) concorda corretamente com "animais" (plural). A frase está gramaticalmente correta.
- D) Incorreta: O pronome relativo "nos quais" retoma "grupos" (plural) e está corretamente empregado. A oração "as micróglias foram eliminadas" está na voz passiva analítica, com o sujeito "as micróglias" (plural) concordando corretamente com o verbo "foram eliminadas" (plural). A frase está gramaticalmente correta.
- E) Incorreta: O verbo "proceder" no sentido de "dar início" ou "realizar" é transitivo indireto e exige a preposição "a" (resultando em "à eliminação"). Quando acompanhado do pronome "se" e sendo um verbo transitivo indireto, o "se" atua como índice de indeterminação do sujeito, e o verbo deve permanecer na 3ª pessoa do singular ("se procedeu"). A frase está gramaticalmente correta.
Fonte: FGV PSS TJ-BA 2023 Juiz Leigo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.