Questão nº 17
Questão de Língua Portuguesa · FGV PSS TJ-BA 2023 (nº 17)
Texto 1 – Estudo revela novo alvo para busca de terapias contra doença de Parkinson [fragmento]
Experimentos com camundongos feitos na USP mostraram que a micróglia, um tipo de célula imunológica presente no sistema nervoso central, ajuda a limitar a perda de neurônios
Agência Fapesp
Estudo conduzido no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) revelou um possível mecanismo protetor contra a doença de Parkinson.
Em camundongos, foi observado que a micróglia, um tipo de célula imunológica do sistema nervoso que compõe a chamada glia – conjunto diversificado de células que dá suporte ao funcionamento dos neurônios – pode limitar a perda de capacidade motora e a morte neuronal.
Todos os testes foram conduzidos em animais que receberam 6-hidroxidopamina, uma toxina indutora de sintomas semelhantes aos da doença de Parkinson, aplicada diretamente no cérebro. Antes, metade dos animais teve as micróglias praticamente eliminadas por uma substância, chamada PLX5622. O grupo que manteve essas células registrou perdas menos significativas de neurônios e de movimento quando comparado aos demais roedores.
"Esses resultados sugerem um possível alvo para o tratamento da doença no futuro, quando descobrirmos mecanismos capazes de ativar a micróglia de maneira benéfica", disse a doutoranda Carolina Parga à assessoria de imprensa do ICB-USP. Ela é primeira autora de um artigo publicado no Journal of Neuroimmunology. [...]
A descoberta contradiz o que os próprios pesquisadores do ICB e outros estudiosos da área haviam visto anteriormente sobre essas células. Até então acreditava-se o contrário, pois, quando elas eram bloqueadas por fármacos, os sintomas do Parkinson eram mitigados.
"A hipótese mais provável para explicar essa diferença nos resultados é a atuação dos dois fenótipos da micróglia, algo já identificado anteriormente na literatura científica. Uma característica, a positiva, que protege contra a perda neuronal, talvez se manifeste no início da doença, e a outra característica, a negativa, que impulsiona essa perda neuronal, vai predominando à medida que a doença vai evoluindo; o mesmo pode ocorrer em outras doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer e algumas formas de epilepsia", detalha Luiz Roberto Giorgetti de Britto, coordenador do estudo pelo Laboratório de Neurobiologia Celular do ICB. [...]
"Isso reforça a importância de desenvolvermos formas de diagnósticos mais assertivas para as doenças neurodegenerativas, para assim chegarmos a soluções terapêuticas. Pois trata-se de doenças que podem estar ativas durante décadas antes do diagnóstico, que em geral se dá só após a manifestação de sintomas, mas sendo mitigadas pela micróglia e outros mecanismos", complementa.
MUDANÇAS GENÉTICAS
No estudo também foram identificados dois genes que podem estar relacionados à doença de Parkinson. Esses genes apresentavam menor expressão apenas nos grupos em que as micróglias foram eliminadas.
"São dois genes relacionados à transmissão por dopamina [substância que influencia nossas emoções, aprendizado e locomoção, além de outras funções] entre alguns grupos de neurônios do sistema nervoso, o que sugere que a micróglia pode ser responsável pela modulação da expressão de genes que atuam nesses processos. Isso ajuda a explicar como a sua ausência resulta na perda de neurônios, o que causa a diminuição de dopamina, o fator responsável pelas alterações motoras", aponta Parga.
Esse conhecimento é promissor principalmente para a pequena parcela de casos de Parkinson e Alzheimer que tem causas genéticas, um total de 5% a 7% dos diagnósticos. "Conhecendo melhor o comportamento desses genes talvez possamos, no futuro, antecipar o diagnóstico da doença, além de propor terapias que consistem na manipulação deles", afirma Britto.
O Laboratório de Neurobiologia Celular agora se aprofunda nos resultados obtidos e nas hipóteses levantadas e também estuda as possíveis implicações da micróglia em modelos animais da doença de Alzheimer.
Todas as alternativas abaixo são reescrituras de alguma passagem do texto 1. O único caso em que NÃO se verifica erro relativo ao emprego do acento grave é:
- ATodos os testes foram conduzidos em animais que receberam 6-hidroxidopamina, uma toxina indutora de manifestações semelhantes as da doença de Parkinson;
- BO grupo que manteve essas células registrou perdas menos significativas de neurônios e de movimento quando comparado as demais cobaias;
- C“Esses resultados sugerem um possível alvo para o tratamento da doença no futuro", disse a doutoranda Carolina Parga à esta assessoria de imprensa;
- DA descoberta constitui uma contradição em relação a observações feitas anteriormente pelos próprios pesquisadores do ICB e outros estudiosos da área; (alternativa correta)
- EOutra característica, a negativa, que impulsiona essa perda neuronal, vai predominando a proporção que a doença vai evoluindo.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A crase é a fusão da preposição "a" com o artigo definido feminino "a" (ou "as") ou com os pronomes demonstrativos "aquele(s)", "aquela(s)", "aquilo". Para que ocorra, o termo anterior deve exigir a preposição "a", e o termo posterior deve admitir o artigo "a(s)" ou ser um dos pronomes demonstrativos mencionados.
- (A) Incorreta: O adjetivo "semelhantes" exige a preposição "a" ("semelhantes a algo"). "As da doença de Parkinson" é um pronome demonstrativo que retoma "manifestações" (equivalente a "aquelas da doença"). Portanto, deveria haver crase: "semelhantes às da doença de Parkinson".
- (B) Incorreta: O verbo "comparado" exige a preposição "a" ("comparado a algo/alguém"). "As demais cobaias" é um substantivo feminino plural precedido de artigo. Portanto, deveria haver crase: "comparado às demais cobaias". A armadilha aqui é que "demais" pode confundir, mas o que importa é que "cobaias" é um substantivo feminino plural que aceita o artigo "as".
- (C) Incorreta: O verbo "disse" exige a preposição "a" quando se refere a quem se diz algo ("disse a alguém"). No entanto, não ocorre crase antes de pronomes demonstrativos como "esta", "este", "isto". Portanto, deveria ser "disse a esta assessoria de imprensa".
- (D) Correta: A locução "em relação" exige a preposição "a" ("em relação a algo"). O termo "observações" é um substantivo feminino plural, mas, neste contexto, não está determinado por um artigo definido "as". É uma referência genérica, como "em relação a algumas observações". Se estivesse determinado (ex: "em relação às observações específicas"), haveria crase. Como está, o "a" é apenas a preposição, e não há fusão com artigo.
- (E) Incorreta: A locução conjuntiva proporcional "a proporção que" exige crase. O correto é "à proporção que", significando "à medida que" ou "conforme".
Fonte: FGV PSS TJ-BA 2023 Juiz Leigo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.