Questão nº 16
Questão de Língua Portuguesa · FGV PSS TJ-BA 2023 (nº 16)
Texto 1 – Estudo revela novo alvo para busca de terapias contra doença de Parkinson [fragmento]
Experimentos com camundongos feitos na USP mostraram que a micróglia, um tipo de célula imunológica presente no sistema nervoso central, ajuda a limitar a perda de neurônios
Agência Fapesp
Estudo conduzido no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) revelou um possível mecanismo protetor contra a doença de Parkinson.
Em camundongos, foi observado que a micróglia, um tipo de célula imunológica do sistema nervoso que compõe a chamada glia – conjunto diversificado de células que dá suporte ao funcionamento dos neurônios – pode limitar a perda de capacidade motora e a morte neuronal.
Todos os testes foram conduzidos em animais que receberam 6-hidroxidopamina, uma toxina indutora de sintomas semelhantes aos da doença de Parkinson, aplicada diretamente no cérebro. Antes, metade dos animais teve as micróglias praticamente eliminadas por uma substância, chamada PLX5622. O grupo que manteve essas células registrou perdas menos significativas de neurônios e de movimento quando comparado aos demais roedores.
"Esses resultados sugerem um possível alvo para o tratamento da doença no futuro, quando descobrirmos mecanismos capazes de ativar a micróglia de maneira benéfica", disse a doutoranda Carolina Parga à assessoria de imprensa do ICB-USP. Ela é primeira autora de um artigo publicado no Journal of Neuroimmunology. [...]
A descoberta contradiz o que os próprios pesquisadores do ICB e outros estudiosos da área haviam visto anteriormente sobre essas células. Até então acreditava-se o contrário, pois, quando elas eram bloqueadas por fármacos, os sintomas do Parkinson eram mitigados.
"A hipótese mais provável para explicar essa diferença nos resultados é a atuação dos dois fenótipos da micróglia, algo já identificado anteriormente na literatura científica. Uma característica, a positiva, que protege contra a perda neuronal, talvez se manifeste no início da doença, e a outra característica, a negativa, que impulsiona essa perda neuronal, vai predominando à medida que a doença vai evoluindo; o mesmo pode ocorrer em outras doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer e algumas formas de epilepsia", detalha Luiz Roberto Giorgetti de Britto, coordenador do estudo pelo Laboratório de Neurobiologia Celular do ICB. [...]
"Isso reforça a importância de desenvolvermos formas de diagnósticos mais assertivas para as doenças neurodegenerativas, para assim chegarmos a soluções terapêuticas. Pois trata-se de doenças que podem estar ativas durante décadas antes do diagnóstico, que em geral se dá só após a manifestação de sintomas, mas sendo mitigadas pela micróglia e outros mecanismos", complementa.
MUDANÇAS GENÉTICAS
No estudo também foram identificados dois genes que podem estar relacionados à doença de Parkinson. Esses genes apresentavam menor expressão apenas nos grupos em que as micróglias foram eliminadas.
"São dois genes relacionados à transmissão por dopamina [substância que influencia nossas emoções, aprendizado e locomoção, além de outras funções] entre alguns grupos de neurônios do sistema nervoso, o que sugere que a micróglia pode ser responsável pela modulação da expressão de genes que atuam nesses processos. Isso ajuda a explicar como a sua ausência resulta na perda de neurônios, o que causa a diminuição de dopamina, o fator responsável pelas alterações motoras", aponta Parga.
Esse conhecimento é promissor principalmente para a pequena parcela de casos de Parkinson e Alzheimer que tem causas genéticas, um total de 5% a 7% dos diagnósticos. "Conhecendo melhor o comportamento desses genes talvez possamos, no futuro, antecipar o diagnóstico da doença, além de propor terapias que consistem na manipulação deles", afirma Britto.
O Laboratório de Neurobiologia Celular agora se aprofunda nos resultados obtidos e nas hipóteses levantadas e também estuda as possíveis implicações da micróglia em modelos animais da doença de Alzheimer.
“Até então acreditava-se o contrário, pois, quando elas eram bloqueadas por fármacos, os sintomas do Parkinson eram mitigados.” (Texto 1, 5º parágrafo)
A frase em que a partícula “se” serve à mesma função comunicativa do “se” presente na passagem acima é:
- ADentre os presentes, cerca de 20% se animaram com o plano descrito pelo anfitrião.
- BVocê não vai se arrepender de ter tentado.
- CDesta vez, eles se viram muito rapidamente.
- DDepois que Marcelo se acabou de chorar é que eu entendi o tamanho do problema.
- EAqui, sempre se procede a uma fiscalização rigorosa no início da semana. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
A partícula "se" pode ter várias funções na língua portuguesa. Para esta questão, é fundamental diferenciar duas delas: a Partícula Apassivadora (PA), que forma a voz passiva sintética com verbos transitivos diretos (o verbo concorda com o sujeito paciente, ex: "Vendem-se casas"), e o Índice de Indeterminação do Sujeito (IIS), que indica que o sujeito da ação é indeterminado e o verbo permanece sempre na 3ª pessoa do singular, geralmente com verbos intransitivos ou transitivos indiretos (ex: "Precisa-se de ajuda").
No trecho original, "Até então acreditava-se o contrário...", o verbo "acreditar" é transitivo indireto (quem acredita, acredita em algo ou que algo). A presença do "se" com um verbo transitivo indireto (ou um verbo que, neste contexto, não tem um sujeito claro e determinado) e o verbo no singular ("acreditava") indica que o sujeito da ação é indeterminado. Portanto, o "se" funciona como Índice de Indeterminação do Sujeito (IIS).
- (A) Incorreta: Dentre os presentes, cerca de 20% se animaram com o plano descrito pelo anfitrião. O "se" aqui faz parte do verbo pronominal "animar-se", indicando que a ação de animar recai sobre os próprios sujeitos ("cerca de 20%"). É um pronome reflexivo ou parte integrante do verbo.
- (B) Incorreta: Você não vai se arrepender de ter tentado. O "se" é parte integrante do verbo "arrepender-se", que é um verbo pronominal. Não é possível usar "arrepender" sem o "se".
- (C) Incorreta: Desta vez, eles se viram muito rapidamente. O "se" aqui é um pronome reflexivo (eles viram a si mesmos) ou recíproco (eles viram um ao outro).
- (D) Incorreta: Depois que Marcelo se acabou de chorar é que eu entendi o tamanho do problema. O "se" é parte integrante do verbo pronominal "acabar-se", usado para enfatizar a intensidade ou a conclusão da ação.
- (E) Correta: Aqui, sempre se procede a uma fiscalização rigorosa no início da semana. O verbo "proceder" é transitivo indireto (quem procede, procede a algo). Acompanhado do "se" e com o verbo na 3ª pessoa do singular ("procede"), o "se" indica que o sujeito da ação é indeterminado ("Alguém procede a uma fiscalização"). Assim como no texto original, o "se" funciona como Índice de Indeterminação do Sujeito (IIS).
Fonte: FGV PSS TJ-BA 2023 Juiz Leigo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.