Questão nº 17
Questão de Português · FGV DPGE-RJ 2014 (nº 17)
XÓPIS
Não foram os americanos que inventaram o shopping center. Seus antecedentes diretos são as galerias de comércio de Leeds, na Inglaterra, e as passagens de Paris pelas quais flanava, encantado, o Walter Benjamin. Ou, se você quiser ir mais longe, os bazares do Oriente. Mas foram os americanos que aperfeiçoaram a ideia de cidades fechadas e controladas, à prova de poluição, pedintes, automóveis, variações climáticas e todos os outros inconvenientes da rua. Cidades só de calçadas, onde nunca chove, neva ou venta, dedicadas exclusivamente às compras e ao lazer – enfim, pequenos (ou enormes) templos de consumo e conforto. Os xópis são civilizações à parte, cuja existência e o sucesso dependem, acima de tudo, de não serem invadidas pelos males da rua.
Dentro dos xópis você pode lamentar a padronização de lojas e grifes, que são as mesmas em todos, e a sensação de estar num ambiente artificial, longe do mundo real, mas não pode deixar de reconhecer que, se a americanização do planeta teve seu lado bom, foi a criação desses bazares modernos, estes centros de conveniência com que o Primeiro Mundo – ou pelo menos uma ilusão de Primeiro Mundo – se espraia pelo mundo todo. Os xópis não são exclusivos, qualquer um pode entrar num xópi nem que seja só para fugir do calor ou flanar entre as suas vitrines, mas a apreensão causada por essas manifestações de massa nas suas calçadas protegidas, os rolezinhos, soa como privilégio ameaçado. De um jeito ou de outro, a invasão planejada de xópis tem algo de dessacralização. É a rua se infiltrando no falso Primeiro Mundo. A perigosa rua, que vai acabar estragando a ilusão.
As invasões podem ser passageiras ou podem descambar para violência e saques. Você pode considerar que elas são contra tudo que os templos de consumo representam ou pode vê-las como o ataque de outra civilização à parte, a da irmandade da internet, à civilização dos xópis. No caso seria o choque de duas potências parecidas, na medida em que as duas pertencem a um primeiro mundo de mentira que não tem muito a ver com a nossa realidade. O difícil seria escolher para qual das duas torcer. Eu ficaria com a mentira dos xópis.
(Veríssimo, O Globo, 26-01-2014.)
A alternativa em que o conectivo destacado tem seu valor semântico corretamente indicado é
- A"...qualquer um pode entrar num xópi nem que seja só para fugir do calor..." / condição.
- B"...para fugir do calor ou flanar entre as suas vitrines,..." / comparação.
- C"...ou podem descambar para violência e saques..." / finalidade. (alternativa correta)
- D"...seria o choque entre duas potências parecidas, na medida em que as duas pertencem a um primeiro mundo..." / proporcionalidade.
- E"Eu ficaria com a mentira dos xópis". / companhia.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Conectivos são palavras ou expressões que ligam termos, orações ou parágrafos, estabelecendo entre eles uma relação de sentido específica, chamada de valor semântico. Compreender esses valores é fundamental para a interpretação textual.
(A) Incorreta: A locução conjuntiva "nem que" geralmente expressa um valor concessivo, significando "ainda que" ou "mesmo que". Ela introduz uma condição extrema ou um obstáculo que não impede a realização da ação principal. Embora relacionada à ideia de condição, não é uma condição pura ("se... então..."), mas sim uma concessão. A armadilha aqui é confundir a proximidade semântica entre concessão e condição, onde "nem que" aponta para uma condição extrema que é aceita (concessão), e não apenas uma condição simples.
(B) Incorreta: A conjunção "ou" é uma conjunção alternativa, indicando uma escolha, opção ou exclusão entre elementos. No trecho, ela oferece duas possibilidades ("fugir do calor" OU "flanar"), e não estabelece uma comparação.
(C) Correta: A preposição "para", neste contexto ("descambar para violência"), indica o destino, o resultado ou a finalidade da ação de "descambar". A violência e os saques são o fim a que a situação se dirige ou o propósito (ainda que negativo) da degeneração. Portanto, "finalidade" está corretamente atribuída.
(D) Incorreta: A locução conjuntiva "na medida em que" tem valor causal ou explicativo, significando "porque", "já que" ou "visto que". Ela explica a razão pela qual as potências são parecidas. Não expressa uma relação de proporcionalidade (que seria "à medida que", "quanto mais... mais...").
(E) Incorreta: A preposição "com" pode indicar companhia, mas no contexto "ficar com a mentira dos xópis", ela expressa escolha, preferência ou adesão a algo. O eu lírico opta por aceitar ou preferir a "mentira dos xópis", e não estar em companhia dela.
Fonte: FGV DPGE-RJ 2014 Conhecimentos Comuns (Técnico Superior Especializado) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.