Questão nº 47
Questão de Direito Administrativo · FGV CMSP 2024 (nº 47)
O Município Ômega, após o devido processo legislativo, fez editar a Lei ABC que versa sobre concurso público e que contém as seguintes determinações:
I. assegura para os candidatos nascidos na localidade um acréscimo de 10% na nota final dos concursos públicos realizados pelo mencionado ente federativo; e
II. veda a investidura em cargos efetivos de seus quadros dos candidatos que tenham sido condenados por sentença judicial transitada em julgado por ato de improbidade administrativa, a qualquer tempo.
Considerando que a constitucionalidade das mencionadas normas foi questionada pelas vias pertinentes, à luz do entendimento do Supremo Tribunal Federal, é correto afirmar que
- Aambas as normas são constitucionais, pois a constante do item I promove a valorização da população local e a do item II, os princípios da impessoalidade e moralidade.
- Bapenas a norma descrita no item I é inconstitucional por violar a isonomia, pois a constante do item II promove os princípios da impessoalidade e moralidade.
- Capenas a norma descrita no item II é inconstitucional, diante da inviabilidade de sanções de caráter perpétuo, pois a constante no item I promove a valorização da população local.
- Dapenas a norma descrita no item II é inconstitucional por violar o princípio da presunção de inocência, pois a constante do item I caracteriza tratamento diferenciado proporcional, mediante justificativa razoável.
- Eambas as normas são inconstitucionais, pois a descrita no item I viola o princípio da isonomia, enquanto a constante do item II vai de encontro a inviabilidade de sanções de caráter perpétuo. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Em concursos públicos, a igualdade de condições entre os candidatos é um princípio fundamental, e as sanções legais não podem ter caráter perpétuo a menos que a Constituição Federal o preveja expressamente.
- A) Incorreta: A norma do item I é inconstitucional por violar a isonomia, e a norma do item II é inconstitucional pela perpetuidade da sanção, apesar de buscar a moralidade.
- B) Incorreta: Embora a norma do item I seja de fato inconstitucional por violar a isonomia, a norma do item II também é inconstitucional. A armadilha da banca aqui é que, embora a vedação a condenados por improbidade administrativa promova os princípios da impessoalidade e moralidade, a imposição de uma sanção a qualquer tempo (ou seja, de caráter perpétuo) é inconstitucional, pois o ordenamento jurídico brasileiro, via de regra, não admite sanções perpétuas, salvo expressa previsão constitucional e com limites temporais definidos (como a inegibilidade). O STF entende que a Lei de Improbidade Administrativa já prevê as sanções cabíveis com seus respectivos prazos, e uma vedação perpétua extrapola esses limites.
- C) Incorreta: A norma do item I é inconstitucional, pois a "valorização da população local" não justifica a violação do princípio da isonomia em concursos públicos.
- D) Incorreta: A norma do item II não viola o princípio da presunção de inocência, pois a condenação já é transitada em julgado. A inconstitucionalidade reside na perpetuidade da sanção. A norma do item I não caracteriza tratamento diferenciado proporcional, sendo inconstitucional.
- (E) Correta: Ambas as normas são inconstitucionais. A norma do item I, que concede acréscimo de nota a candidatos nascidos na localidade, viola o princípio da isonomia (Art. 5º, caput, e Art. 37, I e II, da CF/88), pois estabelece uma discriminação não razoável entre os candidatos. O Supremo Tribunal Federal (STF) tem entendimento consolidado de que qualquer preferência regional ou local em concursos públicos é inconstitucional. Já a norma do item II, que veda a investidura em cargos efetivos a qualquer tempo para condenados por improbidade administrativa, é inconstitucional por ir de encontro à inviabilidade de sanções de caráter perpétuo no direito brasileiro, salvo exceções constitucionais expressas e com prazos definidos. A Lei de Improbidade Administrativa (Lei nº 8.429/92) já prevê as sanções e seus prazos máximos, e uma vedação perpétua para acesso a cargos públicos é desproporcional e não encontra amparo na Constituição Federal.
Fonte: FGV CMSP 2024 Procurador Legislativo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.