Questão nº 33
Questão de Direito Constitucional · FGV CMSP 2024 (nº 33)
Com o objetivo de preservar o patrimônio público e evitar que pessoas inescrupulosas pudessem vir a acarretar a sua redução, a Assembleia Legislativa do Estado Alfa promulgou a Emenda nº X, que passou a dispor que a concessão ou a alienação de terras públicas estaduais, independente da dimensão, dependeria de autorização do Poder Legislativo estadual.
Irresignado com o teor da reforma constitucional, o Chefe do Poder Executivo consultou o Procurador-Geral do Estado a respeito de sua compatibilidade com a Constituição da República, sendo-lhe corretamente respondido que
- Acaso a Constituição do Estado Alfa tenha considerado a separação dos poderes um limite material de reforma constitucional, a Emenda nº X é inconstitucional.
- Bquaisquer incursões do Poder Legislativo na esfera de atuação do Poder Executivo devem estar previstas na Constituição da República, logo, a Emenda nº X é inconstitucional.
- Cos limites materiais de reforma constitucional, previstos na Constituição da República, devem ser observados, por simetria, pelos Estados, logo, a Emenda nº X é inconstitucional.
- Da Emenda nº X, ao adotar tutela compartilhada do patrimônio público, é compatível com a Constituição da República, devendo ainda ser observada a competência do Congresso Nacional nessa temática. (alternativa correta)
- Ea Emenda nº X é inconstitucional por afronta à proporcionalidade, já que a alienação ou a concessão de terras de reduzida dimensão não justifica a limitação da liberdade valorativa do Chefe do Poder Executivo.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A autonomia dos Estados permite que eles se auto-organizem por meio de suas Constituições, desde que respeitem os princípios fundamentais e as normas gerais estabelecidas na Constituição Federal, incluindo a separação de poderes, que admite controles recíprocos entre os Poderes.
- A) Incorreta: A separação de poderes é, de fato, um limite material implícito para os estados. No entanto, a questão central é se a Emenda nº X viola esse limite, e o gabarito indica que não. A condição "caso a Constituição do Estado Alfa tenha considerado" desvia o foco da análise da compatibilidade com a Constituição Federal.
- B) Incorreta: Esta afirmação é muito rígida. A Constituição Federal estabelece um sistema de freios e contrapesos (checks and balances), permitindo que um Poder exerça controle sobre o outro em certas situações, especialmente na gestão do patrimônio público, sem que isso configure uma "incursão" indevida.
- C) Incorreta: Embora seja correto afirmar que os estados devem observar os limites materiais de reforma constitucional da CF por simetria, a conclusão de que a Emenda nº X é inconstitucional não se sustenta. A exigência de autorização legislativa para a alienação de bens públicos é vista como um mecanismo legítimo de controle e proteção do patrimônio, não uma violação de um limite material.
- D) Correta: A Emenda nº X é compatível com a Constituição da República. A exigência de autorização do Poder Legislativo para a concessão ou alienação de terras públicas estaduais é entendida como uma forma de tutela compartilhada do patrimônio público, ou seja, uma responsabilidade dividida entre o Executivo (que administra) e o Legislativo (que fiscaliza e autoriza). Essa medida visa proteger o interesse público e é um mecanismo de controle e fiscalização legítimo, não uma afronta à separação de poderes. O Supremo Tribunal Federal (STF) tem jurisprudência consolidada nesse sentido. A menção à competência do Congresso Nacional serve como um lembrete de que, mesmo em matéria estadual, as normas federais gerais ou específicas (como as que tratam de terras da União ou de certas áreas protegidas) devem ser observadas, mas isso não invalida a autonomia do estado para legislar sobre seus próprios bens.
- E) Incorreta: O argumento da proporcionalidade não se aplica para invalidar a Emenda nº X. A decisão de exigir autorização legislativa para a alienação de terras "independente da dimensão" é uma escolha política do legislador estadual para garantir a máxima proteção ao patrimônio público. Não há uma violação manifesta e irrazoável que justifique a intervenção judicial por desproporcionalidade. A "liberdade valorativa" do Executivo não é absoluta e pode ser limitada por lei para proteger o interesse público.
Fonte: FGV CMSP 2024 Procurador Legislativo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.