Questão nº 9
Questão de Língua Portuguesa · FCC TST 2017 (nº 9)
1. Até que ponto o fracasso é culpa do indivíduo?
Leandro Karnal – Hoje existe um discurso dominante de que tudo o que acontece nas nossas vidas depende das nossas escolhas. Teorias de diversas naturezas, da religião à psicanálise, contrariam essa tese. Não somos tão racionais, nossas escolhas não nascem de uma liberdade plena e o acidente tem um papel maior do que imaginamos. Tenho usado em minhas palestras duas noções desenvolvidas por Nicolau Maquiavel: a “virtù”, o conjunto de habilidades e competências que nascem comigo e que posso desenvolver, e a “fortuna”, que significa o acaso, o inesperado. Ninguém é tão divino (só “virtù”) e nem tão suscetível às circunstâncias (pura “fortuna”). Faz diferença a escolha do indivíduo. Mas nem sempre esse indivíduo lida com uma lógica absoluta, ele faz sua escolha dentro do possível.
2. De que forma o autoconhecimento pode ajudar uma pessoa que está vivendo uma fase ruim na carreira?
Leandro Karnal – Se você olhar para si mesmo com honestidade, se encarar o retrato terrível da Medusa, que é o seu lado difícil, tem a primeira chance de superá-lo. É o que diz a máxima “conhece a ti mesmo”, que funda a filosofia de Sócrates. É preciso investigar a si mesmo para perceber que você também tem falhas. Desse modo, fica mais fácil diminuir o efeito das fraquezas. Por outro lado, conhecer a si mesmo também é conhecer o que há de bom em mim mesmo e aquilo que me traz bem-estar. É comum ver pessoas que dizem que a carreira é tudo para elas, mas sofrem de gastrite no domingo à noite. Não sabem o que realmente querem. Há pessoas que adoram atividades repetitivas. Outras são viciadas em desafios. Eu preciso saber do meu perfil. Não posso contrariar permanentemente a minha natureza.
3. A morte do sociólogo Zygmunt Bauman reacendeu o debate sobre a deterioração das relações humanas na era da internet. Redes sociais geram uma falsa ideia sobre o sucesso alheio?
Leandro Karnal – Toda tecnologia é neutra, tudo depende do que fazemos com ela. Vivemos na sociedade do espetáculo, em que toda a atenção é voltada para a imagem. Precisamos entender que tudo que se publica nas redes sociais é de autoria de um roteirista. É alguém construindo uma imagem.
(Disponível em: exame.abril.com.br. Com adaptações)
Depreende-se corretamente da entrevista:
- ADiversas teorias questionam a tese de que somos inteiramente responsáveis por nossas escolhas, com base na ideia de que estas não são feitas de modo completamente lógico e racional. (alternativa correta)
- BA imagem terrível da Medusa foi usada por Karnal com o intuito de exemplificar de forma metafórica as condições adversas e imprevisíveis que atingem as pessoas em certas ocasiões.
- CPara Karnal, a moderna tecnologia da comunicação deteriora as relações interpessoais, na medida em que não se pode confiar nas informações publicadas nas redes sociais, consideradas obras fictícias de um “roteirista”.
- DKarnal lança mão dos conceitos de “virtù” e “fortuna”, assinalando que o êxito profissional depende do esforço individual e da capacidade que alguns possuem de fazer escolhas racionais, ainda que diante de circunstâncias adversas.
- EA referência à máxima de Sócrates, “conhece a ti mesmo”, foi usada, no contexto, como crítica a pessoas que não planejam a carreira e dedicam-se, sem objetivo definido, a ocupações com que depararam ao acaso.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
O conceito-chave aqui é que nossas escolhas e o sucesso/fracasso na vida não dependem apenas da nossa vontade ou racionalidade, mas também são influenciados por fatores externos e pelo acaso. O autoconhecimento é crucial para alinhar nossas ações com nossa verdadeira natureza.
(A) Correta: O texto afirma explicitamente que "Teorias de diversas naturezas... contrariam essa tese [de que tudo depende das escolhas]. Não somos tão racionais, nossas escolhas não nascem de uma liberdade plena e o acidente tem um papel maior do que imaginamos." Isso corrobora a ideia de que não somos inteiramente responsáveis e que as escolhas não são puramente lógicas.
(B) Incorreta: A "Medusa" é usada para simbolizar o "seu lado difícil" ou as falhas internas da própria pessoa, que precisam ser encaradas para superá-las, e não condições adversas externas e imprevisíveis. A armadilha da banca é associar Medusa a algo externo e assustador, quando o texto a contextualiza como algo interno.
(C) Incorreta: Karnal afirma que "Toda tecnologia é neutra, tudo depende do que fazemos com ela", o que contradiz a ideia de que a tecnologia deteriora as relações. Ele apenas ressalta que as informações nas redes são construções de imagem, mas não atribui a deterioração à tecnologia em si.
(D) Incorreta: Embora mencione "virtù" (esforço individual/habilidades), o texto também enfatiza a "fortuna" (acaso/inesperado) e a ideia de que "Não somos tão racionais", ou seja, as escolhas nem sempre são lógicas e racionais, o que contraria a afirmação de que o êxito depende da "capacidade que alguns possuem de fazer escolhas racionais".
(E) Incorreta: A máxima de Sócrates é usada para enfatizar a importância de investigar a si mesmo para conhecer falhas, qualidades e o que traz bem-estar, a fim de alinhar a carreira com a própria natureza. Não é uma crítica direta à falta de planejamento ou a ocupações aleatórias, mas sim à falta de autoconsciência sobre o que realmente se deseja.
Fonte: FCC TST 2017 Analista Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.