Questão nº 12

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT9 2022 (nº 12)

FCC2022Analista Judiciário - Área Judiciária - Especialidade Oficial de Justiça Avaliador FederalLíngua Portuguesa
Gabarito: Ever comentário ↓

Atenção: Para responder às questões de números 08 a 14, leia o trecho inicial do conto “Virginius: narrativa de um advogado”, de Machado de Assis.

Não me correu tranquilo o S. João de 185...

Duas semanas antes do dia em que a Igreja celebra o evangelista, recebi pelo correio o seguinte bilhete, sem assinatura e de letra desconhecida:

“O Dr. *** é convidado a ir à vila de... tomar conta de um processo. O objeto é digno do talento e das habilitações do advogado. Despesas e honorários ser-lhe-ão satisfeitos antecipadamente, mal puser pé no estribo. O réu está na cadeia da mesma vila e chama-se Julião. Note que o Dr. é convidado a ir defender o réu.”

Li e reli este bilhete; voltei-o em todos os sentidos; comparei a letra com todas as letras dos meus amigos e conhecidos... Nada pude descobrir.

Entretanto, picava-me a curiosidade. Luzia-me um romance através daquele misterioso e anônimo bilhete. Tomei uma resolução definitiva. Ultimei uns negócios, dei de mão outros, e oito dias depois de receber o bilhete tinha à porta um cavalo e um camarada para seguir viagem. No momento em que me dispunha a sair, entrou-me em casa um sujeito desconhecido, e entregou-me um rolo de papel contendo uma avultada soma, importância aproximada das despesas e dos honorários. Recusei apesar das instâncias, montei a cavalo e parti.

Só depois de ter feito algumas léguas é que me lembrei de que justamente na vila a que eu ia morava um amigo meu, antigo companheiro da academia.

Poucos dias depois apeava eu à porta do referido amigo. Depois de entregar o cavalo aos cuidados do camarada, entrei para abraçar o meu antigo companheiro de estudos, que me recebeu alvoroçado e admirado.

A que vens, meu amigo? A que vens? perguntava-me ele.

Vais sabê-lo. Creio que há um romance para deslindar. Há quinze dias recebi no meu escritório, na corte, um bilhete anônimo em que se me convidava com instância a vir a esta vila para tomar conta de uma defesa. Não pude conhecer a letra; era desigual e trêmula, como escrita por mão cansada...

Tens o bilhete contigo?

Tenho.

Tirei do bolso o misterioso bilhete e entreguei-o aberto ao meu amigo. Ele, depois de lê-lo, disse:

É a letra de Pai de todos*.*

Quem é Pai de todos*?*

É um fazendeiro destas paragens, o velho Pio. O povo dá-lhe o nome de Pai de todos*, porque o velho Pio o é na verdade.*

Bem dizia eu que há romance no fundo!... Que faz esse velho para que lhe deem semelhante título?

Pouca coisa. Pio é, por assim dizer, a justiça e a caridade fundidas em uma só pessoa. Só as grandes causas vão ter às autoridades judiciárias, policiais ou municipais; mas tudo o que não sai de certa ordem é decidido na fazenda de Pio, cuja sentença todos acatam e cumprem. Seja ela contra Pedro ou contra Paulo, Paulo e Pedro submetem-se, como se fora uma decisão divina. Quando dois contendores saem da fazenda de Pio, saem amigos. É caso de consciência aderir ao julgamento de Pai de todos*.*

O meu amigo continuou a desfiar as virtudes do fazendeiro. Meu espírito apreendia-se cada vez mais de que eu ia entrar em um romance. Finalmente o meu amigo dispunha-se a contar-me a história do crime em cujo conhecimento devia eu entrar daí a poucas horas. Detive-o.

Não, disse-lhe, deixa-me saber de tudo por boca do próprio réu. Depois compararei com o que me contarás.

É melhor. Julião é inocente...

(Adaptado de: ASSIS, Machado de. Obra Completa, v. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994)


– Não, disse-lhe, deixa-me saber de tudo por boca do próprio réu.” (19º parágrafo)

Ao se transpor o trecho acima para o discurso indireto, o verbo sublinhado assume a seguinte forma:

Este texto de apoio vale também pra questão nº 8, questão nº 9, questão nº 10, questão nº 11, questão nº 13, questão nº 14.

Resposta comentada

Gabarito Alternativa E

Ao transpor um discurso direto para o indireto, é fundamental ajustar os tempos verbais e os pronomes. Quando a fala original contém um imperativo (uma ordem, pedido ou sugestão) e o verbo introdutório do discurso indireto está no passado (como "disse"), o imperativo geralmente se transforma no pretérito imperfeito do subjuntivo.

  • (A) Incorreta: "Deixou" está no pretérito perfeito do indicativo, que não é o tempo verbal adequado para expressar um pedido ou sugestão no discurso indireto.
  • (B) Incorreta: "Deixaria" está no futuro do pretérito do indicativo, que expressa uma condição ou um futuro hipotético, não um pedido transformado do imperativo.
  • (C) Incorreta: "Deixe" está no presente do subjuntivo. Embora seja um modo verbal de desejo/pedido, a concordância verbal exige o pretérito imperfeito do subjuntivo ("deixasse") quando o verbo principal (disse-lhe) está no passado. Esta é a armadilha, pois "deixe" é subjuntivo, mas o tempo não se alenca corretamente com o verbo de elocução no passado.
  • (D) Incorreta: "Deixava" está no pretérito imperfeito do indicativo, que descreve ações habituais ou contínuas no passado, e não um pedido no discurso indireto.
  • (E) Correta: "Deixasse" está no pretérito imperfeito do subjuntivo, que é o tempo verbal correto para transformar um imperativo ou um pedido do discurso direto para o indireto, quando o verbo que introduz a fala (disse-lhe) está no passado. A frase se tornaria: "Não, ele disse-lhe que o deixasse saber de tudo por boca do próprio réu."

Fonte: FCC TRT9 2022 Analista Judiciário - Área Judiciária - Especialidade Oficial de Justiça Avaliador Federal (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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