Questão nº 10

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT9 2022 (nº 10)

FCC2022Analista Judiciário - Área Judiciária - Especialidade Oficial de Justiça Avaliador FederalLíngua Portuguesa
Gabarito: Aver comentário ↓

Atenção: Para responder às questões de números 08 a 14, leia o trecho inicial do conto “Virginius: narrativa de um advogado”, de Machado de Assis.

Não me correu tranquilo o S. João de 185...

Duas semanas antes do dia em que a Igreja celebra o evangelista, recebi pelo correio o seguinte bilhete, sem assinatura e de letra desconhecida:

“O Dr. *** é convidado a ir à vila de... tomar conta de um processo. O objeto é digno do talento e das habilitações do advogado. Despesas e honorários ser-lhe-ão satisfeitos antecipadamente, mal puser pé no estribo. O réu está na cadeia da mesma vila e chama-se Julião. Note que o Dr. é convidado a ir defender o réu.”

Li e reli este bilhete; voltei-o em todos os sentidos; comparei a letra com todas as letras dos meus amigos e conhecidos... Nada pude descobrir.

Entretanto, picava-me a curiosidade. Luzia-me um romance através daquele misterioso e anônimo bilhete. Tomei uma resolução definitiva. Ultimei uns negócios, dei de mão outros, e oito dias depois de receber o bilhete tinha à porta um cavalo e um camarada para seguir viagem. No momento em que me dispunha a sair, entrou-me em casa um sujeito desconhecido, e entregou-me um rolo de papel contendo uma avultada soma, importância aproximada das despesas e dos honorários. Recusei apesar das instâncias, montei a cavalo e parti.

Só depois de ter feito algumas léguas é que me lembrei de que justamente na vila a que eu ia morava um amigo meu, antigo companheiro da academia.

Poucos dias depois apeava eu à porta do referido amigo. Depois de entregar o cavalo aos cuidados do camarada, entrei para abraçar o meu antigo companheiro de estudos, que me recebeu alvoroçado e admirado.

A que vens, meu amigo? A que vens? perguntava-me ele.

Vais sabê-lo. Creio que há um romance para deslindar. Há quinze dias recebi no meu escritório, na corte, um bilhete anônimo em que se me convidava com instância a vir a esta vila para tomar conta de uma defesa. Não pude conhecer a letra; era desigual e trêmula, como escrita por mão cansada...

Tens o bilhete contigo?

Tenho.

Tirei do bolso o misterioso bilhete e entreguei-o aberto ao meu amigo. Ele, depois de lê-lo, disse:

É a letra de Pai de todos*.*

Quem é Pai de todos*?*

É um fazendeiro destas paragens, o velho Pio. O povo dá-lhe o nome de Pai de todos*, porque o velho Pio o é na verdade.*

Bem dizia eu que há romance no fundo!... Que faz esse velho para que lhe deem semelhante título?

Pouca coisa. Pio é, por assim dizer, a justiça e a caridade fundidas em uma só pessoa. Só as grandes causas vão ter às autoridades judiciárias, policiais ou municipais; mas tudo o que não sai de certa ordem é decidido na fazenda de Pio, cuja sentença todos acatam e cumprem. Seja ela contra Pedro ou contra Paulo, Paulo e Pedro submetem-se, como se fora uma decisão divina. Quando dois contendores saem da fazenda de Pio, saem amigos. É caso de consciência aderir ao julgamento de Pai de todos*.*

O meu amigo continuou a desfiar as virtudes do fazendeiro. Meu espírito apreendia-se cada vez mais de que eu ia entrar em um romance. Finalmente o meu amigo dispunha-se a contar-me a história do crime em cujo conhecimento devia eu entrar daí a poucas horas. Detive-o.

Não, disse-lhe, deixa-me saber de tudo por boca do próprio réu. Depois compararei com o que me contarás.

É melhor. Julião é inocente...

(Adaptado de: ASSIS, Machado de. Obra Completa, v. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994)


Considere os seguintes trechos:

I. Depois de entregar o cavalo aos cuidados do camarada, entrei para abraçar o meu antigo companheiro de estudos. (7º parágrafo)

II. – Tens o bilhete contigo? (10º parágrafo)

III. O povo dá-lhe o nome de Pai de todos*, porque o velho Pio* o é na verdade. (15º parágrafo)

Retoma uma expressão mencionada anteriormente no texto o termo sublinhado APENAS em

Este texto de apoio vale também pra questão nº 8, questão nº 9, questão nº 11, questão nº 12, questão nº 13, questão nº 14.

Resposta comentada

Gabarito Alternativa A

Coesão referencial é a relação que se estabelece entre uma palavra ou expressão e outra que já foi mencionada (ou será) no texto, evitando repetições e garantindo a continuidade do sentido. Geralmente, pronomes e advérbios são usados para essa função.

  • (A) Correta: O "o" em "o velho Pio o é na verdade" funciona como um pronome oblíquo átono, substituindo a expressão "Pai de todos". A frase significa "o velho Pio é [Pai de todos] na verdade", ou seja, o pronome "o" retoma e se refere diretamente à expressão "Pai de todos" mencionada anteriormente.
  • (B) Incorreta: O "o" em "o meu antigo companheiro de estudos" é um artigo definido que acompanha o substantivo "companheiro". Ele não retoma uma expressão anterior por si só, mas especifica o substantivo que o segue.
  • (C) Incorreta: O "o" em "Tens o bilhete contigo?" é um artigo definido que acompanha o substantivo "bilhete". Ele não retoma uma expressão anterior, mas especifica o substantivo "bilhete", que já havia sido mencionado. A armadilha aqui é confundir o artigo que especifica um substantivo já conhecido com um pronome que o substitui.
  • (D) Incorreta: Pelas razões expostas acima, nem I nem II apresentam o "o" com função de retomada referencial como pronome.
  • (E) Incorreta: Apenas o item III apresenta o "o" com a função de retomada referencial como pronome.

Fonte: FCC TRT9 2022 Analista Judiciário - Área Judiciária - Especialidade Oficial de Justiça Avaliador Federal (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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