Questão nº 7
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT9 2022 (nº 7)
Atenção: Para responder às questões de números 01 a 07, considere o poema "O que passou passou?" do escritor curitibano Paulo Leminski.
1 Antigamente, se morria.
1907, digamos, aquilo sim
é que era morrer.
Morria gente todo dia,
e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
que o Juízo, afinal, viria,
e todo mundo ia renascer.
Morria-se praticamente de tudo.
10 De doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor,
como se o amar morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
uma das coisas da vida,
20 como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
Tinha coisas que tem que morrer,
30 tinha coisas que tem que matar.
A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
a não ser pegar pneumonia,
deixar tudo para os filhos
e virar fotografia?
Ninguém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
40 Não deu pra ir mais além.
Mas ninguém tem culpa.
Quem mandou não ser devoto
de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
Não tem o que reclamar.
50 Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade
inventou a criônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.
(LEMINSKI, Paulo. Toda poesia, 2013)
Considerando a regência verbal recomendada pela norma-padrão da língua portuguesa, verifica-se um desvio em:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 3, questão nº 4, questão nº 5, questão nº 6.
- A“Agora, vamos ao testamento.” (verso 50)
- B“lá se ia nosso defunto / para a terra dos pés juntos.” (versos 15 e 16)
- C“Almoçou e fez a barba,” (verso 47)
- D“tomou banho e foi no vento.” (verso 48) (alternativa correta)
- E“a ciência da eternidade / inventou a criônica.” (versos 55 e 56)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A regência verbal estuda a relação entre um verbo e seus complementos, indicando se o verbo exige ou não uma preposição e qual preposição usar para ligar o verbo ao seu complemento.
- A) Incorreta: O verbo "ir" (vamos) exige a preposição "a" quando indica destino, como em "ir ao testamento" ("a" + "o" = "ao"). A construção está de acordo com a norma-padrão.
- B) Incorreta: O verbo "ir" (ia) pode reger a preposição "para" para indicar destino, como em "ir para a terra". A construção está correta.
- C) Incorreta: O verbo "almoçar" é usado corretamente como intransitivo ou transitivo direto implícito. O verbo "fazer" é transitivo direto ("fez a barba"). Ambas as regências estão corretas.
- D) Correta: O verbo "ir" (foi), quando indica destino ou movimento, deve ser regido pela preposição "a" ou "para" (ex: "foi ao vento" ou "foi para o vento"). O uso da preposição "em" (contraída em "no") para indicar destino é um desvio da norma-padrão, sendo uma construção coloquial. A armadilha da banca reside na aceitação comum dessa construção na fala cotidiana, mas ela não se alinha à gramática normativa.
- E) Incorreta: O verbo "inventar" é transitivo direto, ou seja, não exige preposição para ligar-se ao seu complemento ("a criônica"). A regência está correta.
Fonte: FCC TRT9 2022 Analista Judiciário - Área Judiciária - Especialidade Oficial de Justiça Avaliador Federal (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.