Questão nº 4

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT6 2025 (nº 4)

FCC2025Técnico Judiciário - Área AdministrativaLíngua Portuguesa
Gabarito: Dver comentário ↓

A violência é sempre a dos outros

Aprendemos com a História que cada época justifica e naturaliza a seu modo as violências que lhe são próprias. As várias experiências de violência que vão surgindo ao longo dos séculos acusam as anteriores, não hesitando em apontar a barbárie das outras todas, enquanto deixam de acusar a que carregam consigo.

Veja-se esta observação do crítico francês Raymond Boudon: "Os gregos e os romanos aceitavam a escravidão porque não imaginavam que uma sociedade pudesse funcionar sem escravos. Estamos numa posição semelhante no que diz respeito à pobreza, na qual se encontram milhões e milhões de criaturas. Estamos convencidos de que uma sociedade justa deve procurar erradicá-la. Mas, como não conseguimos conceber os meios que permitem atingir esse objetivo, aceitamos que uma sociedade comporte grandes bolsões de pobreza. Em contrapartida, não hesitamos em condenar a prática da escravidão".

Parece que tendemos a ser sempre mais complacentes conosco e com a nossa época, avaliando com o maior rigor os descalabros do passado. Também no plano das relações pessoais a consideração que temos uns pelos outros pode não estar marcada pelo amor ao semelhante, mas pela aversão ao dessemelhante. Mas curiosamente, ao se lembrar de sua história pessoal, de sua infância idealizada, cada um de nós pode concluir que "antigamente, sim, tudo era melhor"...

(Alceste Romero de Brito, a editar)


Segundo Raymond Boudon, a existência de grandes bolsões de pobreza em nosso tempo

Resposta comentada

Gabarito Alternativa D

O conceito-chave do texto é a hipocrisia social ou a cegueira seletiva que nos leva a condenar as violências e problemas de outras épocas, enquanto naturalizamos ou justificamos os de nosso próprio tempo, muitas vezes por não conseguirmos conceber soluções para eles.

(A) Incorreta: O texto afirma que "aceitamos que uma sociedade comporte grandes bolsões de pobreza", não que fingimos desconhecer sua existência devido à perplexidade. A aceitação decorre da dificuldade em conceber meios para erradicá-la, não de uma negação da realidade.
(B) Incorreta: A alternativa introduz a ideia de "instinto natural da competição", que não é mencionada no texto como causa da pobreza ou da sua aceitação. O texto foca na dificuldade de conceber soluções.
(C) Incorreta: O texto diz que "não hesitamos em condenar a prática da escravidão", o que significa que não admitimos suas razões. No entanto, a pergunta é sobre a existência da pobreza em nosso tempo, e não sobre como ela afeta nossa visão da escravidão. A comparação de Boudon é sobre a razão para aceitar um problema social, não sobre a interrelação entre a condenação de um e a aceitação do outro.
(D) Correta: O autor Raymond Boudon estabelece um paralelo direto: assim como gregos e romanos aceitavam a escravidão por não imaginarem uma sociedade sem ela, nós aceitamos a pobreza porque, embora queiramos erradicá-la, não conseguimos "conceber os meios" para isso. A razão semelhante é a incapacidade de imaginar ou conceber uma alternativa, levando à aceitação do problema social.
(E) Incorreta: Embora o texto mencione a convicção de que a pobreza deve ser erradicada, ele não detalha "recursos obsessivamente aplicados" nem foca em falhas desses recursos. O ponto principal é a dificuldade de conceber os meios para a erradicação e a consequente aceitação, não a falha de recursos já aplicados.

Fonte: FCC TRT6 2025 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 005). Reproduzida para fins de estudo.

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