Questão nº 1
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT6 2025 (nº 1)
A violência é sempre a dos outros
Aprendemos com a História que cada época justifica e naturaliza a seu modo as violências que lhe são próprias. As várias experiências de violência que vão surgindo ao longo dos séculos acusam as anteriores, não hesitando em apontar a barbárie das outras todas, enquanto deixam de acusar a que carregam consigo.
Veja-se esta observação do crítico francês Raymond Boudon: "Os gregos e os romanos aceitavam a escravidão porque não imaginavam que uma sociedade pudesse funcionar sem escravos. Estamos numa posição semelhante no que diz respeito à pobreza, na qual se encontram milhões e milhões de criaturas. Estamos convencidos de que uma sociedade justa deve procurar erradicá-la. Mas, como não conseguimos conceber os meios que permitem atingir esse objetivo, aceitamos que uma sociedade comporte grandes bolsões de pobreza. Em contrapartida, não hesitamos em condenar a prática da escravidão".
Parece que tendemos a ser sempre mais complacentes conosco e com a nossa época, avaliando com o maior rigor os descalabros do passado. Também no plano das relações pessoais a consideração que temos uns pelos outros pode não estar marcada pelo amor ao semelhante, mas pela aversão ao dessemelhante. Mas curiosamente, ao se lembrar de sua história pessoal, de sua infância idealizada, cada um de nós pode concluir que "antigamente, sim, tudo era melhor"...
(Alceste Romero de Brito, a editar)
As normas de concordância verbal estão plenamente observadas na frase:
- ANão se tratam de rebater tais justificativas, mas compreender as razões que as sustentam.
- BAtraem em nossas memórias da infância o caráter idílico que assumem.
- CNão se imaginem que as diferentes épocas históricas deixem de justificar suas violências.
- DHá quem creia que caibam avaliar as violências buscando justificá-las.
- EDiferem as épocas quanto à justificativa da específica violência que as caracteriza. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
A concordância verbal exige que o verbo concorde em número (singular ou plural) e pessoa (1ª, 2ª ou 3ª) com o seu sujeito. Se o sujeito é singular, o verbo é singular; se o sujeito é plural, o verbo é plural.
- (A) Incorreta: O sujeito da oração "Não se tratam de rebater tais justificativas" é a oração infinitiva "rebater tais justificativas", que funciona como um sujeito oracional e exige o verbo no singular. O correto seria "Não se trata de rebater...". A armadilha aqui é a presença do "se" e a tendência a pluralizar o verbo quando há um objeto plural próximo ("justificativas"), ignorando que o sujeito é a ação expressa pelo infinitivo.
- (B) Incorreta: A frase está mal construída e não possui um sujeito claro para o verbo "Atraem". Se o sujeito fosse "o caráter idílico", o verbo deveria ser "Atrai" (singular). Se o sujeito fosse "nossas memórias", a preposição "em" impediria que fosse o sujeito, tornando a frase incoerente.
- (C) Incorreta: Na construção com "se" como índice de indeterminação do sujeito ou partícula apassivadora de uma oração subjetiva, o verbo deve permanecer na 3ª pessoa do singular. O correto seria "Não se imagina que as diferentes épocas históricas deixem de justificar suas violências".
- (D) Incorreta: Semelhante à alternativa (A), o sujeito do verbo "caibam" é a oração infinitiva "avaliar as violências", que funciona como sujeito oracional e exige o verbo no singular. O correto seria "Há quem creia que caiba avaliar as violências...".
- (E) Correta: O sujeito do verbo "Diferem" é "as épocas" (plural). O verbo "Diferem" está na 3ª pessoa do plural, concordando perfeitamente com o seu sujeito. A frase "que as caracteriza" também está correta, pois "que" retoma "violência" (singular), e "caracteriza" está no singular.
Fonte: FCC TRT6 2025 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 005). Reproduzida para fins de estudo.