Questão nº 8
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT6 2018 (nº 8)
Em um trabalho de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, defende-se a ideia de que em nossos dias há o enaltecimento de uma cultura global, a cultura-mundo, que, apoiando-se no apagamento das fronteiras, cria denominadores culturais dos quais participam sociedades e indivíduos, apesar das diferentes tradições, crenças e línguas que lhes são próprias.
Embora seja um estudo perspicaz, algumas afirmações me parecem discutíveis. Uma que se diria pouco procedente consiste em supor-se que, em vista de milhões de turistas visitarem locais como a Acrópole e os anfiteatros gregos da Sicília, a cultura não perdeu valor em nosso tempo. Mas as visitas de multidões a grandes museus e monumentos históricos não representam um interesse genuíno pela "alta cultura" (assim a chamam), visto que isso faz parte da obrigação do turista. Em vez de despertar seu interesse pelo passado e pela arte, exonera-o de conhecê-los a fundo. Essas visitas dos turistas "em busca de distrações" desnaturam o significado real desses museus e monumentos.
Um estudo recente do sociólogo Frédéric Martel mostra que tal "cultura-mundo" de que falavam Lipovetsky e Serroy já ficou para trás, defasada pela voragem de nosso tempo.
As reportagens e os testemunhos coligidos por Martel são representativos de uma realidade que a sociologia e a filosofia ainda não tinham se atrevido a reconhecer. A maioria das pessoas não consome hoje outra forma de cultura que não seja aquela que, antes, era considerada passatempo, sem parentesco com as atividades intelectuais e artísticas que constituíam a cultura. O autor vê com simpatia essa transformação, porque, graças a ela, a cultura do grande público arrebatou a vida cultural à pequena minoria, que antes a monopolizava.
A diferença essencial entre a cultura do passado e o entretenimento de hoje é que os produtos daquela pretendiam transcender o tempo presente, ao passo que os produtos deste são fabricados para serem consumidos no momento e desaparecer.
Para essa nova cultura são essenciais a produção industrial maciça e o sucesso comercial. A distinção entre preço e valor se apagou. É bom o que tem sucesso; mau o que não conquista o público. O único valor existente é agora o fixado pelo mercado.
O verbo que pode ser flexionado em uma forma do plural, sem que nenhuma outra modificação seja feita na frase, encontra-se em:
- AA maioria das pessoas não consome hoje outra forma de cultura... (alternativa correta)
- BA distinção entre preço e valor se apagou.
- C... a cultura do grande público arrebatou a vida cultural à pequena minoria...
- DEm um trabalho de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, defende-se a ideia de que...
- E... a cultura-mundo, que (...) cria denominadores culturais...
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Em português, quando o sujeito é um substantivo coletivo (como "maioria", "parte", "metade", "grande número") seguido de um termo no plural (ex: "das pessoas", "dos alunos"), o verbo pode concordar tanto com o coletivo (no singular) quanto com o termo no plural.
- (A) Correta: "A maioria das pessoas não consome hoje outra forma de cultura..." O sujeito é "A maioria das pessoas". "Maioria" é um substantivo coletivo. Nesses casos, o verbo pode concordar com "maioria" (singular, como "consome") ou com "pessoas" (plural, "consomem"). Assim, "A maioria das pessoas não consomem hoje outra forma de cultura..." seria igualmente correto, sem outras modificações na frase.
- (B) Incorreta: "A distinção entre preço e valor se apagou." O sujeito é "A distinção" (singular). O verbo "apagou" (singular) concorda com ele. Para flexionar o verbo para o plural ("apagaram"), o sujeito também precisaria ser plural ("As distinções"), o que implicaria outra modificação na frase.
- (C) Incorreta: "... a cultura do grande público arrebatou a vida cultural à pequena minoria..." O sujeito é "a cultura do grande público" (singular). O verbo "arrebatou" (singular) concorda com ele. Para flexionar o verbo para o plural ("arrebaram"), o sujeito também precisaria ser plural ("As culturas"), o que implicaria outra modificação na frase.
- (D) Incorreta: "Em um trabalho de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, defende-se a ideia de que..." Esta é uma construção de voz passiva sintética com a partícula "se". O sujeito paciente é "a ideia" (singular). O verbo "defende" (singular) concorda com "a ideia". Para flexionar o verbo para o plural ("defendem-se"), o sujeito paciente precisaria ser plural ("as ideias"), o que implicaria outra modificação na frase.
- (E) Incorreta: "... a cultura-mundo, que (...) cria denominadores culturais..." O pronome relativo "que" retoma "a cultura-mundo" (singular). Portanto, o verbo "cria" (singular) deve concordar com seu antecedente singular. Para flexionar o verbo para o plural ("criam"), o antecedente de "que" precisaria ser plural, o que alteraria o sentido ou exigiria outra modificação.
Fonte: FCC TRT6 2018 Conhecimentos Comuns (Administrativa TRT6 2018) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.