Questão nº 4

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT6 2018 (nº 4)

FCC2018Comum Administrativa TRT6 2018Língua Portuguesa
Gabarito: Aver comentário ↓

Vou falar da palavra pessoa*, que* persona lembra. Acho que aprendi o que vou contar com meu pai. Quando elogiavam demais alguém, ele resumia sóbrio e calmo: é, ele é uma pessoa. Até hoje digo, como se fosse o máximo que se pode dizer de alguém que venceu numa luta, e digo com o coração orgulhoso de pertencer à humanidade: ele, ele é um homem.

Persona*. Tenho pouca memória, por isso já não sei se era no antigo teatro grego que os atores, antes de entrar em cena, pregavam ao rosto uma máscara que representava pela expressão o que o papel de cada um deles iria exprimir.*

Bem sei que uma das qualidades de um ator está nas mutações sensíveis de seu rosto, e que a máscara as esconde. Por que então me agrada tanto a ideia de atores entrarem no palco sem rosto próprio? Quem sabe, eu acho que a máscara é um dar-se tão importane quanto o dar-se pela dor do rosto. Inclusive os adolescentes, estes que são puro rosto, à medida que vão vivendo fabricam a própria máscara. E com muita dor. Porque saber que de então em diante se vai passar a representar um papel é uma surpresa amedrontadora. É a liberdade horrível de não ser. E a hora da escolha.

Mesmo sem ser atriz nem ter pertencido ao teatro grego – uso uma máscara. Aquela mesma que nos partos de adolescência se escolhe para não se ficar desnudo para o resto da luta. Não, não é que se faça mal em deixar o próprio rosto exposto à sensibilidade. Mas é que esse rosto que estava nu poderia, ao ferir-se, fechar-se sozinho em súbita máscara involuntária e terrível. É, pois, menos perigoso escolher sozinho ser uma pessoa. Escolher a própria máscara é o primeiro gesto involuntário humano. E solitário. Mas quando enfim se afivela a máscara daquilo que se escolheu para representar o mundo, o corpo ganha uma nova firmeza, a cabeça ergue-se altiva como a de quem superou um obstáculo. A pessoa é.

Se bem que pode acontecer uma coisa que me humilha contar.

É que depois de anos de verdadeiro sucesso com a máscara, de repente – ah, menos que de repente, por causa de um olhar passageiro ou uma palavra ouvida – de repente a máscara de guerra de vida cresta-se toda no rosto como lama seca, e os pedaços irregulares caem com um ruído oco no chão. Eis o rosto agora nu, maduro, sensível quando já não era mais para ser. E ele chora em silêncio para não morrer. Pois nessa certeza sou implacável: este ser morrerá. A menos que renasça até que dele se possa dizer "esta é uma pessoa".


As frases abaixo referem-se à pontuação do texto.

I. ... a máscara de guerra de vida cresta-se toda no rosto como lama seca, e os pedaços irregulares caem com um ruído oco no chão. (último parágrafo)
A vírgula colocada após lama seca justifica-se pelo fato de separar duas orações de sujeitos diferentes.

II. Escolher a própria máscara é o primeiro gesto involuntário humano. E solitário. (4º parágrafo)
O ponto final imediatamente após humano, embora possa ser substituído corretamente por uma vírgula, presta-se a dar ênfase ao segmento posterior.

III. ... à medida que vão vivendo fabricam a própria máscara. (3º parágrafo)
Pode-se acrescentar uma vírgula após o segmento vão vivendo, sem prejuízo da correção e do sentido da frase.

Está correto o que se afirma em

Resposta comentada

Gabarito Alternativa A

A pontuação organiza as ideias na frase, indicando pausas e relações sintáticas para facilitar a compreensão. A vírgula é usada para separar elementos com funções diferentes ou para indicar pausas breves, enquanto o ponto final encerra uma ideia completa.

  • Afirmação I (Análise): A primeira oração é "a máscara de guerra de vida cresta-se toda no rosto como lama seca" (sujeito: "a máscara"). A segunda oração é "os pedaços irregulares caem com um ruído oco no chão" (sujeito: "os pedaços irregulares"). Como as orações coordenadas aditivas (ligadas pelo "e") possuem sujeitos diferentes, o uso da vírgula antes do "e" é obrigatório. Portanto, a afirmação está correta.
  • Afirmação II (Análise): O ponto final após "humano" cria uma pausa mais longa e um destaque maior para "E solitário", que complementa a ideia anterior com um tom enfático. A substituição por vírgula ("...humano, e solitário.") seria gramaticalmente possível, mas alteraria o efeito de ênfase desejado pela autora. A pontuação é também um recurso estilístico. Portanto, a afirmação está correta.
  • Afirmação III (Análise): "à medida que vão vivendo" é uma oração subordinada adverbial proporcional. Quando uma oração adverbial é anteposta (vem antes) à oração principal ("fabricam a própria máscara"), o uso da vírgula para separá-las é recomendado ou até obrigatório, especialmente se a oração adverbial for longa. Adicionar a vírgula aqui melhora a clareza e está em conformidade com as normas gramaticais, sem alterar o sentido. Portanto, a afirmação está correta.

Como as afirmações I, II e III estão todas corretas, a alternativa que as inclui é a correta.

  • (A) Correta: As afirmações I, II e III estão todas corretas. A vírgula antes do "e" em orações com sujeitos diferentes (I) é obrigatória. O ponto final para ênfase (II) é um recurso estilístico válido. A vírgula em orações adverbiais antepostas (III) é recomendada e não prejudica o sentido.
  • (B) Incorreta: A afirmação III também está correta, não apenas I e II.
  • (C) Incorreta: A afirmação II também está correta, não apenas I e III.
  • (D) Incorreta: As afirmações I e III também estão corretas, não apenas II.
  • (E) Incorreta: As afirmações I e II também estão corretas, não apenas III.

Fonte: FCC TRT6 2018 Conhecimentos Comuns (Administrativa TRT6 2018) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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