Questão nº 5

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT6 2018 (nº 5)

FCC2018Comum Administrativa TRT6 2018Língua Portuguesa
Gabarito: Bver comentário ↓

Vou falar da palavra pessoa*, que* persona lembra. Acho que aprendi o que vou contar com meu pai. Quando elogiavam demais alguém, ele resumia sóbrio e calmo: é, ele é uma pessoa. Até hoje digo, como se fosse o máximo que se pode dizer de alguém que venceu numa luta, e digo com o coração orgulhoso de pertencer à humanidade: ele, ele é um homem.

Persona*. Tenho pouca memória, por isso já não sei se era no antigo teatro grego que os atores, antes de entrar em cena, pregavam ao rosto uma máscara que representava pela expressão o que o papel de cada um deles iria exprimir.*

Bem sei que uma das qualidades de um ator está nas mutações sensíveis de seu rosto, e que a máscara as esconde. Por que então me agrada tanto a ideia de atores entrarem no palco sem rosto próprio? Quem sabe, eu acho que a máscara é um dar-se tão importane quanto o dar-se pela dor do rosto. Inclusive os adolescentes, estes que são puro rosto, à medida que vão vivendo fabricam a própria máscara. E com muita dor. Porque saber que de então em diante se vai passar a representar um papel é uma surpresa amedrontadora. É a liberdade horrível de não ser. E a hora da escolha.

Mesmo sem ser atriz nem ter pertencido ao teatro grego – uso uma máscara. Aquela mesma que nos partos de adolescência se escolhe para não se ficar desnudo para o resto da luta. Não, não é que se faça mal em deixar o próprio rosto exposto à sensibilidade. Mas é que esse rosto que estava nu poderia, ao ferir-se, fechar-se sozinho em súbita máscara involuntária e terrível. É, pois, menos perigoso escolher sozinho ser uma pessoa. Escolher a própria máscara é o primeiro gesto involuntário humano. E solitário. Mas quando enfim se afivela a máscara daquilo que se escolheu para representar o mundo, o corpo ganha uma nova firmeza, a cabeça ergue-se altiva como a de quem superou um obstáculo. A pessoa é.

Se bem que pode acontecer uma coisa que me humilha contar.

É que depois de anos de verdadeiro sucesso com a máscara, de repente – ah, menos que de repente, por causa de um olhar passageiro ou uma palavra ouvida – de repente a máscara de guerra de vida cresta-se toda no rosto como lama seca, e os pedaços irregulares caem com um ruído oco no chão. Eis o rosto agora nu, maduro, sensível quando já não era mais para ser. E ele chora em silêncio para não morrer. Pois nessa certeza sou implacável: este ser morrerá. A menos que renasça até que dele se possa dizer "esta é uma pessoa".


Nos segmentos que representava (2º parágrafo), as esconde (3º parágrafo) e como a de quem superou um obstáculo (4º parágrafo), os termos sublinhados se referem, respectivamente, a:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa B

A referência pronominal é a forma como os pronomes (palavras como "que", "as", "a") se conectam a outros termos já mencionados no texto, evitando repetições e garantindo que o leitor entenda a quem ou ao que o pronome se refere.

  • que em "que representava": No trecho "...pregavam ao rosto uma máscara que representava...", o pronome relativo "que" retoma o substantivo feminino singular "máscara", que é o termo imediatamente anterior e o agente da ação de "representar".
  • as em "as esconde": Na frase "...nas mutações sensíveis de seu rosto, e que a máscara as esconde", o pronome oblíquo "as" retoma o termo feminino plural "mutações sensíveis", indicando que são essas mutações que a máscara esconde.
  • a em "como a de quem superou um obstáculo": No segmento "...a cabeça ergue-se altiva como a de quem superou um obstáculo", o pronome demonstrativo "a" (que significa "aquela") retoma o substantivo feminino singular "cabeça", comparando a altivez da cabeça do sujeito com a cabeça de alguém que superou um obstáculo.

A) Incorreta: O primeiro termo ("rosto") está incorreto, pois "que" se refere a "máscara". O terceiro termo ("máscara") também está incorreto, pois "a" se refere a "cabeça".
B) Correta: Os três termos estão corretamente identificados: "que" se refere a "máscara"; "as" se refere a "mutações sensíveis"; e "a" se refere a "cabeça".
C) Incorreta: O primeiro termo ("rosto") está incorreto. O segundo termo ("qualidades") está incorreto, pois "as" retoma "mutações sensíveis", que são as qualidades específicas que a máscara esconde. O terceiro termo ("firmeza") está incorreto.
D) Incorreta: O segundo termo ("qualidades") está incorreto. Embora "mutações sensíveis" sejam qualidades, o pronome "as" retoma diretamente o que a máscara esconde, que são as "mutações sensíveis", e não o conceito mais amplo de "qualidades". Esta é a armadilha da banca: "qualidades" é um termo mais genérico, enquanto "mutações sensíveis" é o referente direto da ação de "esconder".
E) Incorreta: O terceiro termo ("firmeza") está incorreto, pois "a" se refere a "cabeça".

Fonte: FCC TRT6 2018 Conhecimentos Comuns (Administrativa TRT6 2018) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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