Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT6 2018 (nº 2)
Vou falar da palavra pessoa*, que* persona lembra. Acho que aprendi o que vou contar com meu pai. Quando elogiavam demais alguém, ele resumia sóbrio e calmo: é, ele é uma pessoa. Até hoje digo, como se fosse o máximo que se pode dizer de alguém que venceu numa luta, e digo com o coração orgulhoso de pertencer à humanidade: ele, ele é um homem.
Persona*. Tenho pouca memória, por isso já não sei se era no antigo teatro grego que os atores, antes de entrar em cena, pregavam ao rosto uma máscara que representava pela expressão o que o papel de cada um deles iria exprimir.*
Bem sei que uma das qualidades de um ator está nas mutações sensíveis de seu rosto, e que a máscara as esconde. Por que então me agrada tanto a ideia de atores entrarem no palco sem rosto próprio? Quem sabe, eu acho que a máscara é um dar-se tão importane quanto o dar-se pela dor do rosto. Inclusive os adolescentes, estes que são puro rosto, à medida que vão vivendo fabricam a própria máscara. E com muita dor. Porque saber que de então em diante se vai passar a representar um papel é uma surpresa amedrontadora. É a liberdade horrível de não ser. E a hora da escolha.
Mesmo sem ser atriz nem ter pertencido ao teatro grego – uso uma máscara. Aquela mesma que nos partos de adolescência se escolhe para não se ficar desnudo para o resto da luta. Não, não é que se faça mal em deixar o próprio rosto exposto à sensibilidade. Mas é que esse rosto que estava nu poderia, ao ferir-se, fechar-se sozinho em súbita máscara involuntária e terrível. É, pois, menos perigoso escolher sozinho ser uma pessoa. Escolher a própria máscara é o primeiro gesto involuntário humano. E solitário. Mas quando enfim se afivela a máscara daquilo que se escolheu para representar o mundo, o corpo ganha uma nova firmeza, a cabeça ergue-se altiva como a de quem superou um obstáculo. A pessoa é.
Se bem que pode acontecer uma coisa que me humilha contar.
É que depois de anos de verdadeiro sucesso com a máscara, de repente – ah, menos que de repente, por causa de um olhar passageiro ou uma palavra ouvida – de repente a máscara de guerra de vida cresta-se toda no rosto como lama seca, e os pedaços irregulares caem com um ruído oco no chão. Eis o rosto agora nu, maduro, sensível quando já não era mais para ser. E ele chora em silêncio para não morrer. Pois nessa certeza sou implacável: este ser morrerá. A menos que renasça até que dele se possa dizer "esta é uma pessoa".
Na frase E ele chora em silêncio para não morrer (último parágrafo), a oração sublinhada acima complementa o sentido
- Ada oração anterior, de modo que pode ser substituída por um substantivo.
- Bdo pronome "ele", e pode ser assim reescrita: "para que não se morra".
- Cda locução adverbial "em silêncio", e por isso possui a mesma função de um adjetivo.
- Ddo substantivo "silêncio", e pode ser substituída por uma oração adjetiva.
- Edo verbo "chorar", e por isso possui função adverbial, expressando finalidade. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
O conceito-chave aqui é entender que as orações subordinadas adverbiais funcionam como um advérbio, ou seja, modificam um verbo, um adjetivo ou outro advérbio, indicando uma circunstância (tempo, causa, finalidade, etc.). A oração "para não morrer" indica a finalidade (o propósito, o objetivo) da ação de "chorar".
- (A) Incorreta: A oração "para não morrer" complementa o verbo "chorar", não a oração anterior de forma genérica. Além disso, embora algumas orações adverbiais possam ser reduzidas a substantivos (como "para o estudo" em vez de "para estudar"), a função principal aqui não é de um substantivo, mas de uma circunstância.
- (B) Incorreta: A oração "para não morrer" não complementa o pronome "ele". Ela explica por que "ele chora", ou seja, modifica o verbo "chorar". A reescrita "para que não se morra" está correta como forma desenvolvida da oração reduzida de infinitivo, mas a premissa de que complementa o pronome está errada. Essa é a armadilha da banca: apresentar uma parte correta (a possibilidade de reescrita) junto com uma afirmação fundamentalmente errada sobre a função sintática.
- (C) Incorreta: A oração "para não morrer" não modifica a locução adverbial "em silêncio". "Em silêncio" indica o modo como ele chora, enquanto "para não morrer" indica a finalidade do choro. Orações adverbiais têm função adverbial, não adjetiva (que modificaria um substantivo).
- (D) Incorreta: A oração "para não morrer" não complementa o substantivo "silêncio". Ela se refere ao verbo "chorar". Se complementasse um substantivo, seria uma oração adjetiva, o que não é o caso aqui, pois expressa finalidade.
- (E) Correta: A oração "para não morrer" indica a finalidade, o propósito da ação de "chorar". Portanto, ela complementa o sentido do verbo "chorar" e, por expressar uma circunstância (finalidade), possui função adverbial, sendo classificada como uma oração subordinada adverbial final.
Fonte: FCC TRT6 2018 Conhecimentos Comuns (Administrativa TRT6 2018) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.