Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT5 2022 (nº 6)
Atenção: Para responder às questões de números 6 a 10, baseie-se no texto abaixo.
A “paz da descrença”
Em antiga entrevista, Millôr Fernandes – um supremo humorista do nosso país – contou uma passagem decisiva de sua história.
“Meu pai morreu quando eu tinha 1 ano. Minha mãe quando eu tinha 9 anos. Eu fui ao enterro, não me lembra mais a sensação. Foi aquele momento que você nem percebe muito bem o que está acontecendo. Mas aí eu voltei pra uma casa em que eu estava morando [...], de um tio pobre, funcionário público, e eu me meti então embaixo da cama [...] e aí eu chorei feito um desesperado, não tinha pai, não tinha mais ninguém, eu vivia emprestado numa casa, entende? De repente me veio uma tranquilidade depois de eu chorar não sei quanto tempo, ninguém viu isso, e veio um sentimento que mais tarde eu defini como “a paz da descrença”. A descrença me trouxe uma paz absoluta. O sentimento meu a partir daí, e depois definitivamente concretizado, é que “sou eu e o destino, não tem nenhum intermediário”, “não há interface”.
Assumindo-se como sujeito efetivo de sua história, Millôr salvou-se do afogamento mortal puxando-se pelos próprios cabelos. A partir daí, se afirmou como escritor, tradutor e como um dos analistas e intérpretes mais críticos deste país. A ‘paz da descrença’, paradoxalmente, aguçou sua lucidez inconformada e aquele seu humor implacável que põe a nu as encenações políticas e nossas hipocrisias pessoais. Lucidez, crítica e humor constituem, como se sabe, uma combinação fulminante.
(Vicente Rui Caldeira, a publicar)
Em seu relato, Millôr Fernandes se vale da expressão “a paz da descrença”, à qual ele chegou
Este texto de apoio vale também pra questão nº 7, questão nº 8, questão nº 9, questão nº 10.
- Apoupando-se de qualquer esforço para atingir uma paz verdadeira.
- Bem meio ao processo de um luto que jamais aceitaria superar.
- Cdesgarrando-se dos conflitos de quem não aceita o destino. (alternativa correta)
- Dcomo arremate da convicção trágica de que a vida nada vale.
- Epor meio de uma nova fé que abraçou com fervor místico.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O conceito-chave aqui é a autonomia emocional e a aceitação da realidade sem ilusões. Millôr Fernandes encontra a "paz da descrença" ao perceber que não há intermediários entre ele e seu destino, ou seja, ele é o único responsável por sua própria jornada, sem depender de ajuda externa ou lamentar o que não pode ser mudado.
(A) Incorreta: O texto afirma que Millôr "salvou-se do afogamento mortal puxando-se pelos próprios cabelos", o que indica um grande esforço, e não a ausência dele.
(B) Incorreta: A "paz da descrença" surge como uma forma de superação da dor e do desamparo, permitindo que ele se afirme e se torne um crítico, o oposto de um luto não superado.
(C) Correta: A expressão "sou eu e o destino, não tem nenhum intermediário" mostra que ele se liberta da expectativa de que algo ou alguém interviria em sua vida, aceitando sua condição e parando de lutar contra a realidade de sua orfandade e desamparo. Essa aceitação da falta de intermediários é o que o "desgarra" dos conflitos de quem se recusa a aceitar a dureza do destino.
(D) Incorreta: A "paz da descrença" o leva a uma "lucidez inconformada" e a um "humor implacável", tornando-o um crítico e intérprete da realidade, o que demonstra uma valorização da vida e da ação, e não uma convicção de que a vida nada vale.
(E) Incorreta: A própria palavra "descrença" é o oposto de fé, e o texto não sugere qualquer elemento místico, mas sim uma visão pragmática e autônoma da existência.
Fonte: FCC TRT5 2022 Conhecimentos Comuns (Área Judiciária TRT5 2022) (Caderno Tipo 002). Reproduzida para fins de estudo.