Questão nº 3

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT24 2016 (nº 3)

FCC2016Comum Analista JudiciáriaLíngua Portuguesa
Gabarito: Bver comentário ↓

A representação da “realidade” na imprensa

Parece ser um fato assentado, para muitos, que um jornal ou um telejornal expresse a “realidade”. Folhear os cadernos de papel de ponta a ponta ou seguir pacientemente todas as imagens do grande noticiário televisivo seriam operações que atualizariam a cada dia nossa “compreensão do mundo”. Mas esse pensamento, tão disseminado quanto ingênuo, não leva em conta a questão da perspectiva pela qual se interpretam todas e quaisquer situações focalizadas. Submetermo-nos à visada do jornalista que compôs a notícia, ou mesmo à do câmera que flagra uma situação (e que, aliás, tem suas tomadas sob o controle de um editor de imagens), é desfazermo-nos da nossa própria capacidade de análise, é renunciarmos à perspectiva de sujeitos da nossa interpretação.

Tanto quanto os propalados e indiscutíveis “fatos”, as notícias em si mesmas, com a forma acabada pela qual se veiculam, são parte do mundo: convém averiguar a quem interessa o contorno de uma análise política, o perfil criado de uma personalidade, o sentido de um levante popular ou o alcance de uma medida econômica. O leitor e o espectador atentos ao que leem ou veem não têm o direito de colocar de lado seu senso crítico e tomar a notícia como espelho fiel da “realidade”. Antes de julgarmos “real” o “fato” que já está interpretado diante de nossos olhos, convém reconhecermos o ângulo pelo qual o fato se apresenta como indiscutível e como se compõe, por palavras ou imagens, a perspectiva pela qual uma bem particular “realidade” quer se impor para nós, dispensando-nos de discutir o ponto de vista pelo qual se construiu uma informação.

(Tibério Gaspar, inédito)


Considere este segmento do texto:

Submetermo-nos à visada do jornalista que compôs a notícia [...] é desfazermo-nos da nossa própria capacidade de análise [...]

Está inteiramente clara, coerente e correta esta nova redação dada ao segmento acima:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa B

O conceito-chave aqui é a paráfrase, que consiste em reescrever um trecho de texto usando outras palavras, mas mantendo o sentido original, a clareza e a correção gramatical. É como dizer a mesma coisa de um jeito diferente, sem mudar a ideia central.

(A) Incorreta: A construção "Caso não nos desfazermos" está gramaticalmente incorreta; o correto seria "Caso não nos desfaçamos". Além disso, a frase inverte o sentido do original: o texto diz que se nos submetemos, perdemos a capacidade de análise, enquanto esta alternativa sugere que se não perdemos a capacidade, nos inclinamos, o que é contraditório com a ideia principal.

(B) Correta: Esta alternativa mantém o sentido original com clareza e correção. "Se aceitarmos inteiramente a perspectiva de quem redigiu a notícia" é uma paráfrase exata para "Submetermo-nos à visada do jornalista que compôs a notícia". Da mesma forma, "não nos valeremos de nossa própria faculdade de interpretá-la" equivale a "é desfazermo-nos da nossa própria capacidade de análise". A relação de causa e consequência é preservada.

(C) Incorreta: A expressão "Quem se compraz a ver uma reportagem do ângulo jornalístico" altera a nuance do original. "Comprazer-se" significa ter prazer, satisfazer-se, o que não é o mesmo que "submeter-se" (aceitar passivamente ou sem crítica). A submissão implica uma falta de questionamento, não necessariamente prazer.

(D) Incorreta: "À medida em que nos curvamos pelo poder de quem noticia" muda o foco. O texto original fala em submeter-se à "visada" (ponto de vista, perspectiva), não necessariamente ao "poder" de quem noticia. Embora haja uma relação, a substituição não é precisa e altera a ênfase.

(E) Incorreta: A frase "Estaremos divergindo da nossa possibilidade de interpretar" não capta o sentido de "desfazermo-nos" (perder, renunciar). "Divergir" significa discordar ou afastar-se, não necessariamente perder a capacidade. Além disso, a construção "com que nos submetemos" é redundante e gramaticalmente estranha no contexto.

Fonte: FCC TRT24 2016 Conhecimentos Comuns (Analista Judiciária) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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