Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT24 2016 (nº 2)
A representação da “realidade” na imprensa
Parece ser um fato assentado, para muitos, que um jornal ou um telejornal expresse a “realidade”. Folhear os cadernos de papel de ponta a ponta ou seguir pacientemente todas as imagens do grande noticiário televisivo seriam operações que atualizariam a cada dia nossa “compreensão do mundo”. Mas esse pensamento, tão disseminado quanto ingênuo, não leva em conta a questão da perspectiva pela qual se interpretam todas e quaisquer situações focalizadas. Submetermo-nos à visada do jornalista que compôs a notícia, ou mesmo à do câmera que flagra uma situação (e que, aliás, tem suas tomadas sob o controle de um editor de imagens), é desfazermo-nos da nossa própria capacidade de análise, é renunciarmos à perspectiva de sujeitos da nossa interpretação.
Tanto quanto os propalados e indiscutíveis “fatos”, as notícias em si mesmas, com a forma acabada pela qual se veiculam, são parte do mundo: convém averiguar a quem interessa o contorno de uma análise política, o perfil criado de uma personalidade, o sentido de um levante popular ou o alcance de uma medida econômica. O leitor e o espectador atentos ao que leem ou veem não têm o direito de colocar de lado seu senso crítico e tomar a notícia como espelho fiel da “realidade”. Antes de julgarmos “real” o “fato” que já está interpretado diante de nossos olhos, convém reconhecermos o ângulo pelo qual o fato se apresenta como indiscutível e como se compõe, por palavras ou imagens, a perspectiva pela qual uma bem particular “realidade” quer se impor para nós, dispensando-nos de discutir o ponto de vista pelo qual se construiu uma informação.
(Tibério Gaspar, inédito)
Têm sentido próximo ou equivalente, no contexto da argumentação desenvolvida, os segmentos
- Aa questão da perspectiva pela qual se interpretam todas e quaisquer situações / o ângulo pelo qual o fato se apresenta (alternativa correta)
- Bdesfazermo-nos da nossa própria capacidade de análise / reconhecermos o ângulo pelo qual o fato se apresenta
- CSubmetermo-nos à visada do jornalista / averiguar a quem interessa o contorno de uma análise política
- Dtomar a notícia como espelho fiel da “realidade” / O leitor e o espectador atentos ao que leem ou veem
- Eos propalados e indiscutíveis “fatos” / como se compõe, por palavras ou imagens, a perspectiva
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
O conceito-chave aqui é equivalência de sentido, que significa encontrar duas frases ou expressões que, no contexto do texto, transmitem a mesma ideia ou mensagem, mesmo que usem palavras diferentes. O texto argumenta que a mídia não mostra a "realidade" de forma neutra, mas sim uma versão dela filtrada por um ponto de vista ou perspectiva.
(A) Correta: "a questão da perspectiva pela qual se interpretam todas e quaisquer situações" (primeiro parágrafo) e "o ângulo pelo qual o fato se apresenta" (segundo parágrafo) são expressões que se referem diretamente ao mesmo conceito: a forma como a informação é vista, filtrada e apresentada, ou seja, o ponto de vista ou a ótica sob a qual algo é interpretado ou mostrado. Ambas as frases destacam que a "realidade" na imprensa não é objetiva, mas sim moldada por uma perspectiva ou ângulo específico.
(B) Incorreta: "desfazermo-nos da nossa própria capacidade de análise" significa perder a habilidade de pensar criticamente. "reconhecermos o ângulo pelo qual o fato se apresenta" significa identificar o ponto de vista. A primeira é uma consequência negativa da passividade, a segunda é uma ação crítica recomendada, não são equivalentes em sentido.
(C) Incorreta: "Submetermo-nos à visada do jornalista" significa aceitar passivamente o ponto de vista do jornalista. "averiguar a quem interessa o contorno de uma análise política" significa investigar os motivos por trás de uma análise. Uma é passividade, a outra é investigação ativa, são opostas.
(D) Incorreta: "tomar a notícia como espelho fiel da “realidade”" é uma atitude de aceitação acrítica da notícia. "O leitor e o espectador atentos ao que leem ou veem" descreve um tipo de pessoa. Uma é uma ação/crença, a outra é uma descrição de um sujeito, não havendo equivalência de sentido.
(E) Incorreta: "os propalados e indiscutíveis “fatos”" refere-se aos fatos que são apresentados como inquestionáveis (muitas vezes ironicamente). "como se compõe, por palavras ou imagens, a perspectiva" refere-se ao processo de construção de um ponto de vista. O primeiro é o conteúdo (o que é dito), o segundo é o método de construção (como é dito), não são equivalentes.
Fonte: FCC TRT24 2016 Conhecimentos Comuns (Analista Judiciária) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.