Questão nº 1
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT24 2016 (nº 1)
A representação da “realidade” na imprensa
Parece ser um fato assentado, para muitos, que um jornal ou um telejornal expresse a “realidade”. Folhear os cadernos de papel de ponta a ponta ou seguir pacientemente todas as imagens do grande noticiário televisivo seriam operações que atualizariam a cada dia nossa “compreensão do mundo”. Mas esse pensamento, tão disseminado quanto ingênuo, não leva em conta a questão da perspectiva pela qual se interpretam todas e quaisquer situações focalizadas. Submetermo-nos à visada do jornalista que compôs a notícia, ou mesmo à do câmera que flagra uma situação (e que, aliás, tem suas tomadas sob o controle de um editor de imagens), é desfazermo-nos da nossa própria capacidade de análise, é renunciarmos à perspectiva de sujeitos da nossa interpretação.
Tanto quanto os propalados e indiscutíveis “fatos”, as notícias em si mesmas, com a forma acabada pela qual se veiculam, são parte do mundo: convém averiguar a quem interessa o contorno de uma análise política, o perfil criado de uma personalidade, o sentido de um levante popular ou o alcance de uma medida econômica. O leitor e o espectador atentos ao que leem ou veem não têm o direito de colocar de lado seu senso crítico e tomar a notícia como espelho fiel da “realidade”. Antes de julgarmos “real” o “fato” que já está interpretado diante de nossos olhos, convém reconhecermos o ângulo pelo qual o fato se apresenta como indiscutível e como se compõe, por palavras ou imagens, a perspectiva pela qual uma bem particular “realidade” quer se impor para nós, dispensando-nos de discutir o ponto de vista pelo qual se construiu uma informação.
(Tibério Gaspar, inédito)
Diante das informações que habitualmente nos oferecem os jornais e os noticiários, devemos, segundo o autor do texto,
- Aconsiderar como fatos efetivos apenas aqueles que ganham igual dimensão em todos os veículos.
- Bimaginar que os interesses existentes na divulgação dos fatos acabam por destituí-los de importância.
- Cinterpretar as notícias de modo a excluir delas o que nos pareça mais problemático ou inverossímil.
- Dponderar que tais informações são construídas a partir de um ponto de vista necessariamente particular. (alternativa correta)
- Eavaliar os fatos noticiados segundo o ângulo que melhor se afine com os nossos valores pessoais.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
O texto argumenta que a notícia não é um espelho fiel da realidade, mas sim uma construção que reflete a perspectiva de quem a produz. Devemos, portanto, desenvolver um senso crítico para questionar essa perspectiva.
(A) Incorreta: O texto não sugere que a dimensão em diferentes veículos seja um critério para a efetividade dos fatos, mas sim que a perspectiva de cada um deve ser questionada.
(B) Incorreta: O texto não afirma que os interesses destituem os fatos de importância, mas sim que eles moldam a forma como os fatos são apresentados e interpretados. A armadilha é confundir a importância do fato com a interpretação do fato.
(C) Incorreta: O autor incentiva a análise crítica e a discussão do ponto de vista, não a exclusão do que parece problemático ou inverossímil.
(D) Correta: O texto enfatiza que a notícia é uma "visada do jornalista", um "ângulo pelo qual o fato se apresenta" e que "uma bem particular 'realidade' quer se impor", destacando que as informações são sempre construídas a partir de um ponto de vista específico.
(E) Incorreta: O texto defende que o leitor e o espectador "não têm o direito de colocar de lado seu senso crítico" e devem "discutir o ponto de vista pelo qual se construiu uma informação", o que é diferente de simplesmente alinhar a notícia aos próprios valores.
Fonte: FCC TRT24 2016 Conhecimentos Comuns (Analista Judiciária) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.