Questão nº 10
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT23 2022 (nº 10)
Atenção: Para responder às questões de números 6 a 10, baseie-se no texto abaixo.
O futuro encolheu
Nós, modernos, acordando, voltamo-nos sobretudo para o futuro. Definimo-nos pela capacidade de mudança − não pelo que somos, mas pelo que poderíamos vir a ser: projetos e potencialidades. O tempo de nossa vida é o futuro. Em nossos despertares cotidianos, podemos ter uma experiência fugaz e minoritária do presente, mas é a voz do futuro que nos acorda e nos faz sair da cama.
A questão é: qual futuro? Ele pode ser de longo prazo: desde o apelo do dever de produzir um mundo mais justo até o medo das águas que subirão por causa do efeito estufa. Ou então ele pode ser imediato: as tarefas do dia que começa, as necessidades do fim do mês, a perspectiva de um encontro poucas horas mais tarde.
Do século 17 ao começo do século 20, o tempo dominante na experiência de nossa cultura parece ter sido um futuro grandioso − projetos coletivos a longo prazo. Hoje prevalece o futuro dos afazeres imediatos. Nada de utopia, somente a agenda do dia. Afinal, aqueles futuros de outrora, gloriosos, revelaram-se como barbáries do século.
Ainda assim, o futuro encolhido de hoje parece um pouco inquietante. É que o futuro não foi inventado só para espantar a morte. O futuro nos serve também para impor disciplina ao presente. Ele é nosso árbitro moral. Esperamos dele que avalie nossos atos. Em suma: a qualidade de nossos atos de hoje depende do futuro com o qual sonhamos. Nossa conduta tenta agradar ao tribunal que nos espera. Receio que futuros muito encolhidos comandem vidas francamente mesquinhas.
(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Terra de ninguém. São Paulo: Publifolha, 2004, p. 88-89)
É inteiramente regular o emprego do termo sublinhado na frase:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 6, questão nº 7, questão nº 8, questão nº 9.
- AOs dias futuros, aos quais se reconhece o direcionamento das nossas vidas, são cada vez mais inquietantes.
- BAs tarefas do cotidiano, que seu valor antigamente era tido como mesquinho, fecham hoje o sentido do nosso futuro.
- CO efeito estufa é um fenômeno à que se associa a catástrofe da subida das águas e da submersão de cidades.
- DHá, segundo o autor do texto, a necessidade de discernir o futuro sob o qual comando orientaremos nossa vida.
- EEram coletivos os projetos de que os antigos se valiam para alimentarem as mais gloriosas utopias. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
O conceito-chave de regência verbal é a relação que um verbo estabelece com seus complementos, ou seja, se ele pede ou não uma preposição e qual preposição. O pronome relativo (como "que", "o qual", "cujo", "onde") retoma um termo anterior e introduz uma nova oração; a preposição que o antecede é determinada pela regência do verbo ou nome da oração que ele introduz.
- (A) Incorreta: A regência mais natural para "reconhecer o direcionamento" (no sentido de "identificar") seria "reconhecer o direcionamento nos dias futuros", pedindo a preposição "em", resultando em "nos quais". A preposição "a" ("aos quais") seria usada se "reconhecer" significasse "atribuir" (ex: "reconhecer o mérito a alguém"), o que não se encaixa tão bem no contexto.
- (B) Incorreta: O pronome relativo "que seu" está incorreto para indicar posse. O correto seria o pronome relativo "cujo" (e suas variações), que concorda com o substantivo que ele antecede ("valor") e retoma o termo anterior ("tarefas do cotidiano"). A frase deveria ser: "As tarefas do cotidiano, cujo valor antigamente era tido como mesquinho...".
- (C) Incorreta: O verbo "associar" na voz passiva sintética ("se associa") pede a preposição "a" (associar algo a algo). No entanto, o pronome relativo "que" não aceita artigo antes dele para formar crase ("à que"). O correto seria "ao qual" (referindo-se a "fenômeno", que é masculino) ou, menos formalmente, "a que" (sem crase).
- (D) Incorreta: A construção "sob o qual comando" é inadequada. Para indicar posse ou relação de pertencimento, o pronome relativo correto seria "cujo" (e suas variações), concordando com "comando". A frase deveria ser: "o futuro sob cujo comando orientaremos nossa vida".
- (E) Correta: O verbo "valer-se" é pronominal e rege a preposição "de" (valer-se de algo). Como o pronome relativo "que" retoma "projetos" e é complemento do verbo "valer-se", a preposição "de" é obrigatória antes dele, formando "de que". A construção "de que" está perfeitamente regular.
Fonte: FCC TRT23 2022 Conhecimentos Comuns (Área Judiciária TRT23 2022) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.