Questão nº 8
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT15 2024 (nº 8)
Os deuses da cidade
Para ver uma cidade não basta ficar de olhos abertos. É preciso primeiramente descartar tudo aquilo que impede de vê-la, todas as ideias recebidas, as imagens pré-constituídas que continuam a estorvar o campo visual e a capacidade de compreensão. Depois é preciso saber simplificar, reduzir ao essencial o enorme número de elementos que a cada segundo a cidade põe diante dos olhos de quem a observa, e ligar os fragmentos espalhados num desenho analítico e ao mesmo tempo unitário, como o diagrama de uma máquina, com o qual se possa compreender como ela funciona.
A comparação da cidade com uma máquina é, ao mesmo tempo, pertinente e desviante. Pertinente porque uma cidade vive na medida em que funciona, isso é, em que serve para se viver nela e para fazer viver. Desviante porque, diferentemente das máquinas, que são criadas com vistas a uma determinada função, as cidades são todas ou quase todas o resultado de adaptações sucessivas a funções diferentes, não previstas por sua fundação anterior (penso nas cidades italianas com sua história de séculos ou de milênios).
Mais do que com a máquina, é a comparação com o organismo vivo na evolução da espécie que pode nos dizer alguma coisa importante sobre a cidade: como, ao passar de uma era para outra, as espécies vivas adaptam seus órgãos para novas funções ou desaparecem, assim também as cidades. E não podemos esquecer que na história da evolução toda espécie carrega consigo características que parecem de outras eras, na medida em que já não correspondem a necessidades vitais, mas que talvez um dia, em condições ambientais transformadas, serão as que salvarão a espécie da extinção. Assim a força da continuidade de uma cidade pode consistir em características e elementos que hoje parecem prescindíveis, porque esquecidos ou contraditos por seu funcionamento atual.
Os antigos representavam o espírito de uma cidade com aquele tanto de vago e aquele tanto de preciso que essa operação implica, evocando os nomes dos deuses que presidiram sua fundação: nomes que equivalem a personificações de posturas vitais do comportamento humano e que tinham de garantir a vocação profunda da cidade. Uma cidade pode passar por catástrofes e anacronismos, ver estirpes diferentes sucedendo-se em suas casas, ver suas casas mudarem cada pedra, mas deve, no momento certo, sob formas diferentes, reencontrar os próprios deuses.
(Adaptado de CALVINO, Ítalo. Assunto encerrado. Trad. Roberta Barni. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 333-336, passim)
É inteiramente regular a pontuação da seguinte frase:
- AAntes de mais nada, livremo-nos, para bem olhar uma cidade, dos aspectos já atribuídos a ela. (alternativa correta)
- BPelos aspectos de uma cidade, já incorporados nela, não se deve orientar, a precisão do nosso olhar.
- CTantos são os aspectos, de uma cidade, que se arrisca a perdê-los, quem a olha apressadamente.
- DNão pode, um olhar ligeiro, dar-se inteiramente conta, dos aspectos complexos de uma cidade.
- EMuitas vezes ocorre que, a pressa de um olhar desatento, deixe de registrar a alma mesma, de uma cidade.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
A vírgula é usada para indicar pausas breves na leitura, separar elementos de uma lista, isolar expressões explicativas, deslocar termos (como adjuntos adverbiais) ou intercalar orações. O erro mais comum e que as bancas exploram é a separação indevida do sujeito e do predicado, ou do verbo e seu complemento.
- (A) Correta: "Antes de mais nada" é uma expressão adverbial deslocada no início da frase, exigindo vírgula. "para bem olhar uma cidade" é uma oração adverbial de finalidade intercalada, que deve ser isolada por vírgulas. A estrutura principal "livremo-nos dos aspectos já atribuídos a ela" está intacta.
- (B) Incorreta: A vírgula entre "orientar" (verbo) e "a precisão do nosso olhar" (sujeito do verbo "orientar") está incorreta, pois separa o verbo do seu sujeito. Essa é a armadilha da banca: separar o sujeito do predicado, ou o verbo de seu complemento, com vírgula.
- (C) Incorreta: A vírgula após "aspectos" está incorreta, pois "de uma cidade" é um complemento nominal ou adjunto adnominal de "aspectos" e não deve ser separado. A vírgula após "perdê-los" também está incorreta, pois separa o verbo de seu sujeito ("quem a olha apressadamente").
- (D) Incorreta: As vírgulas que isolam "um olhar ligeiro" estão incorretas, pois separam o sujeito da locução verbal "não pode dar-se conta".
- (E) Incorreta: A vírgula após "que" está incorreta, pois separa a conjunção integrante do sujeito da oração subordinada ("a pressa de um olhar desatento"). A vírgula após "alma mesma" também está incorreta, pois "de uma cidade" é um complemento nominal de "alma mesma".
Fonte: FCC TRT15 2024 Analista Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Tecnologia da Informação (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.