Questão nº 5

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT15 2024 (nº 5)

FCC2024Analista Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Tecnologia da InformaçãoLíngua Portuguesa
Gabarito: Cver comentário ↓

Os deuses da cidade

Para ver uma cidade não basta ficar de olhos abertos. É preciso primeiramente descartar tudo aquilo que impede de vê-la, todas as ideias recebidas, as imagens pré-constituídas que continuam a estorvar o campo visual e a capacidade de compreensão. Depois é preciso saber simplificar, reduzir ao essencial o enorme número de elementos que a cada segundo a cidade põe diante dos olhos de quem a observa, e ligar os fragmentos espalhados num desenho analítico e ao mesmo tempo unitário, como o diagrama de uma máquina, com o qual se possa compreender como ela funciona.

A comparação da cidade com uma máquina é, ao mesmo tempo, pertinente e desviante. Pertinente porque uma cidade vive na medida em que funciona, isso é, em que serve para se viver nela e para fazer viver. Desviante porque, diferentemente das máquinas, que são criadas com vistas a uma determinada função, as cidades são todas ou quase todas o resultado de adaptações sucessivas a funções diferentes, não previstas por sua fundação anterior (penso nas cidades italianas com sua história de séculos ou de milênios).

Mais do que com a máquina, é a comparação com o organismo vivo na evolução da espécie que pode nos dizer alguma coisa importante sobre a cidade: como, ao passar de uma era para outra, as espécies vivas adaptam seus órgãos para novas funções ou desaparecem, assim também as cidades. E não podemos esquecer que na história da evolução toda espécie carrega consigo características que parecem de outras eras, na medida em que já não correspondem a necessidades vitais, mas que talvez um dia, em condições ambientais transformadas, serão as que salvarão a espécie da extinção. Assim a força da continuidade de uma cidade pode consistir em características e elementos que hoje parecem prescindíveis, porque esquecidos ou contraditos por seu funcionamento atual.

Os antigos representavam o espírito de uma cidade com aquele tanto de vago e aquele tanto de preciso que essa operação implica, evocando os nomes dos deuses que presidiram sua fundação: nomes que equivalem a personificações de posturas vitais do comportamento humano e que tinham de garantir a vocação profunda da cidade. Uma cidade pode passar por catástrofes e anacronismos, ver estirpes diferentes sucedendo-se em suas casas, ver suas casas mudarem cada pedra, mas deve, no momento certo, sob formas diferentes, reencontrar os próprios deuses.

(Adaptado de CALVINO, Ítalo. Assunto encerrado. Trad. Roberta Barni. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 333-336, passim)


As normas de concordância verbal estão plenamente observadas na frase:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa C

Concordância verbal é a regra de que o verbo deve sempre combinar (concordar) em número (singular ou plural) e pessoa (eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles/elas) com o seu sujeito. Para aplicá-la corretamente, o primeiro passo é identificar quem ou o que realiza ou sofre a ação do verbo.

  • (A) Incorreta: O verbo "contribui" está no singular, mas seu sujeito, "os fatores que já condicionaram nosso olhar", está no plural. O correto seria "contribuem".
  • (B) Incorreta: O verbo "importa" está no singular, mas seu sujeito, "as cristalizações já incorporadas", está no plural. O correto seria "importam". A armadilha é o sujeito posposto ao verbo.
  • (C) Correta: O verbo "constituem-se" está no plural e concorda corretamente com o sujeito composto "uma visão pertinente e uma visão desviante de uma cidade", que é plural. O "se" atua como partícula apassivadora, e o verbo concorda com o sujeito paciente.
  • (D) Incorreta: O verbo "costumam adaptar-se" está no plural, mas seu sujeito, "o organismo das criaturas de cada espécie", está no singular. O correto seria "costuma adaptar-se". A armadilha é o sujeito posposto ao verbo.
  • (E) Incorreta: Há dois erros de concordância. Primeiro, "Evocava-se" está no singular, mas seu sujeito, "os nomes dos deuses", está no plural; o correto seria "Evocavam-se". Segundo, "deveriam cultuar" está no plural, mas seu sujeito, "cada cidade", está no singular; o correto seria "deveria cultuar". A armadilha é a presença de múltiplos erros e sujeitos pospostos.

Fonte: FCC TRT15 2024 Analista Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Tecnologia da Informação (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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