Questão nº 7
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT15 2023 (nº 7)
Ainda hoje, quando lanço o olhar ao mar, imagino a vida de meus avós como ilhas distantes, cercadas pela vastidão de um oceano de histórias (muitas delas guardadas na linha de um horizonte que não pode mais ser lido). No alto do Morro de São Sebastião, contemplo o sol nascente e me inspiro a iniciar estas linhas. Talvez elas não contenham toda a verdade, talvez haja imprecisões e deslizes históricos, mas foi assim que eu as recebi, pela boca dos que sobreviveram.
Ieiri-san inspecionava as conversas dos navios que nasciam no estaleiro que dirigia com disciplina. Há décadas os japoneses iniciaram a colonização da ilha de Taiwan, tomada da China após a guerra sino-japonesa. Para lá a família Ieiri emigrou para prosperar. Chiyoko, filha do patriarca Ieiri, cresceu entre finas bonecas de porcelana, tendo os melhores instrutores, tornando-se de pianista a carateca. Sempre ávida por conhecimento, aprendeu com seu tio diversos procedimentos, tais como a realização de partos e, sobretudo, a quiropraxia. Chiyoko se transformou em uma mulher extraordinária, nadando em alto-mar e, apesar de sua compleição esguia, aventurando-se até a praticar sumô. Após aprender tantas coisas, não poderia ter se tornado outra coisa a não ser professora.
Naquele dia, apesar da triste guerra, Chiyoko estava feliz. Era o dia do aniversário de seu pai. Não importava a ela que seu otosan estivesse em um leito de hospital nem que o medo rondasse cada esquina. Ela tinha conseguido, a grande custo, algumas iguarias que seu pai gostava de comer. Era para comemorar a data, para celebrar a vida. E seus passos eram alegres quando a sirene tocou. E era alegre o dia quando as bombas caíram.
O hospital em que seu pai estava foi atingido. A vida naufragou. [...] Por ter aprendido tantas coisas com o tio médico, Chiyoko auxiliava os feridos durante a guerra, que estava para ser perdida.
(Adaptado de: KONDO, André. Origens. Editora do Brasil, 2019. Edição Eletrônica)
No texto, verifica-se emprego de antítese, que intensifica o contraste entre as ideias expostas, no seguinte segmento:
- AEra para comemorar a data, para celebrar a vida.
- BSempre ávida por conhecimento, aprendeu com seu tio diversos procedimentos.
- CIeiri-san inspecionava as conversas dos navios que nasciam no estaleiro que dirigia com disciplina.
- DNaquele dia, apesar da triste guerra, Chiyoko estava feliz. (alternativa correta)
- EEla tinha conseguido, a grande custo, algumas iguarias que seu pai gostava de comer.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A antítese é uma figura de linguagem que consiste em aproximar palavras ou ideias de sentidos opostos, criando um contraste forte. É como colocar duas coisas bem diferentes lado a lado para que a diferença fique ainda mais evidente.
(A) Incorreta: "Comemorar" e "celebrar" são sinônimos, não ideias opostas.
(B) Incorreta: "Ávida por conhecimento" e "aprender" são ideias relacionadas, não opostas.
(C) Incorreta: "Inspecionava" e "nasciam" não são ideias opostas, mas sim ações sequenciais em um contexto.
(D) Correta: A antítese está clara na oposição entre a "triste guerra" e a felicidade de Chiyoko. Essa contraposição realça o drama da situação, onde mesmo em meio a um evento terrível, há um momento de alegria pessoal. A banca explora a ideia de que a felicidade em um contexto de tristeza é um contraste marcante.
(E) Incorreta: "Conseguido" e "grande custo" indicam dificuldade, mas não são ideias diretamente opostas.
Fonte: FCC TRT15 2023 Analista Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Tecnologia da Informação (Caderno Tipo 002). Reproduzida para fins de estudo.