Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-15 2018 (nº 6)
Atenção: Para responder às questões de números 1 a 7, baseie-se no texto abaixo.
Sabedoria de Sêneca
Entre as tantas reflexões sábias que o filósofo estoico Sêneca nos deixou encontra-se esta: “Deve-se misturar e alternar a solidão e a comunicação. Aquela nos incutirá o desejo do convívio social, esta, o desejo de nós mesmos; e uma será o remédio da outra: a solidão curará nossa aversão à multidão, a multidão, nosso tédio à solidão”. É uma proposta admirável de equilíbrio, válida tanto para o século I, na pujança do Império Romano em que Sêneca viveu, como para o nosso, em que precisamos viver. É próprio, aliás, dos grandes pensadores, formular verdades que não envelhecem.
Nesse seu preciso aconselhamento, Sêneca encontra a possibilidade de harmonização entre duas necessidades opostas e aparentemente inconciliáveis. O decidido amor à solidão ou a necessidade ingente de convívio com os outros excluem-se, a princípio, e marcariam personalidades radicalmente distintas. Mas Sêneca sabe que ambas podem ser insatisfatórias em si mesmas: a natureza humana comporta impulsos contraditórios. Por isso está no sistema filosófico dos estoicos a noção de equilíbrio como princípio inescapável para o que consideram, como o melhor dos nossos destinos, a “tranquilidade da alma”.
Esse equilíbrio supõe aceitarmos as tensões polarizadas de nossa natureza dividida e aproveitar de cada polaridade o que ela tenha de melhor: a solidão nos impulsiona para o reconhecimento de nós mesmos, para a nossa identidade íntima, para a diferença que nos identifica entre todos; a companhia nos faz reconhecer a identidade do outro, movida pela mesma força que constitui a nossa. Sêneca, ao reconhecer que somos unos em nós mesmos, lembra que essa mesma instância de unidade está em todos nós, e tem um nome: humanidade.
(Altino Sampaio, inédito)
A pontuação e a correlação entre tempos e modos verbais ocorrem de modo plenamente adequado na frase:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 3, questão nº 4, questão nº 5, questão nº 7.
- ASêneca numa de suas reflexões mais sábias acredita que nossa natureza, dividida pode compensar essa divisão, com o recurso da consciente alternância.
- BSe a solidão não nos impulsionasse, para o reconhecimento de nós mesmos, não haverá qualquer vantagem, em nos rendermos ocasionalmente a ela.
- CAcredita Sêneca que toda lição sabiamente apreendida por um poderá servir-nos a todos, uma vez reconhecidos como seres igualmente unos em nós mesmos. (alternativa correta)
- DEsse equilíbrio, suporia que aceitemos as tensões que venham a polarizar nossa natureza dividida por exemplo, entre o estado de solidão e a vida comunicativa.
- ECaso a solidão venha a ocorrer, como um estigma definitivo, seria possível que se perca de vez a própria necessidade de comunicação, que estaria na nossa natureza.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Para entender a adequação da pontuação e da correlação verbal, precisamos saber que a pontuação organiza as ideias na frase (como o uso correto de vírgulas, que não devem separar sujeito de predicado, por exemplo) e a correlação verbal garante que os tempos e modos dos verbos se encaixem logicamente, mantendo a coerência temporal e de sentido (se algo acontecesse, seria uma consequência; se acredita, poderá acontecer).
- (A) Incorreta: Há erros de pontuação. A vírgula em "natureza, dividida pode" separa o sujeito ("nossa natureza") do predicado ("dividida pode compensar") ou um adjunto adnominal restritivo de seu substantivo. Se "dividida" for explicativo, deveria haver vírgula também depois dele ("natureza, dividida, pode"). A vírgula em "divisão, com o recurso" separa o verbo "compensar" de seu adjunto adverbial de meio.
- (B) Incorreta: Há erros de pontuação e correlação verbal. As vírgulas em "impulsionasse, para o reconhecimento" e "vantagem, em nos rendermos" separam o verbo de seu complemento ou o substantivo de seu complemento nominal, o que é incorreto. Na correlação verbal, "Se a solidão não nos impulsionasse" (pretérito imperfeito do subjuntivo, indicando condição hipotética) exige uma consequência no futuro do pretérito (condicional), como "não haveria", e não "não haverá" (futuro do presente).
- (C) Correta: A pontuação está plenamente adequada. A inversão "Acredita Sêneca" é gramaticalmente correta e não requer vírgula. A vírgula antes de "uma vez reconhecidos" separa uma oração adverbial de tempo/condição, o que é aceitável. A correlação verbal "Acredita" (presente do indicativo) com "poderá servir" (futuro do presente do indicativo) é perfeita, expressando uma crença atual sobre uma possibilidade futura.
- (D) Incorreta: Há erros de pontuação. A vírgula em "equilíbrio, suporia" separa o sujeito ("Esse equilíbrio") do predicado ("suporia"). Além disso, a expressão "por exemplo" deveria estar entre vírgulas ("dividida, por exemplo,").
- (E) Incorreta: Embora a correlação verbal "Caso [futuro do subjuntivo]... [futuro do pretérito]" seja correta ("venha a ocorrer" -> "seria possível"), a sequência "seria possível que se perca" (futuro do pretérito + presente do subjuntivo) é considerada menos "plenamente adequada" para expressar uma consequência hipotética de uma condição hipotética. O mais comum e consistente, nesse contexto, seria usar o pretérito imperfeito do subjuntivo: "seria possível que se perdesse". A questão pede "plenamente adequado", e essa sutileza torna a alternativa menos ideal que a C.
Fonte: FCC TRT-15 2018 Conhecimentos Comuns (Judiciária) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.