Questão nº 9
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-12 2023 (nº 9)
Atenção: Leia o trecho do conto "Caso da vara", de Machado de Assis, para responder às questões de números 1 a 10.
Damião fugiu do seminário às onze horas da manhã de uma sexta-feira de agosto. Não sei bem o ano, foi antes de 1850. Passados alguns minutos parou vexado; não contava com o efeito que produzia nos olhos da outra gente aquele seminarista que ia espantado, medroso, fugitivo. Desconhecia as ruas, andava e desandava, finalmente parou. Para onde iria? Para casa, não, lá estava o pai que o devolveria ao seminário, depois de um bom castigo. Não assentara no ponto de refúgio, porque a saída estava determinada para mais tarde; uma circunstância fortuita a apressou. Para onde iria? Lembrou-se do padrinho, João Carneiro, mas o padrinho era um moleirão sem vontade, que por si só não faria coisa útil. Foi ele que o levou ao seminário e o apresentou ao reitor:
- Trago-lhe o grande homem que há de ser, disse ele ao reitor.
- Venha, acudiu este, venha o grande homem, contanto que seja também humilde e bom. A verdadeira grandeza é chã. Moço...
Tal foi a entrada. Pouco tempo depois fugiu o rapaz ao seminário. Aqui o vemos agora na rua, espantado, incerto, sem atinar com refúgio nem conselho; percorreu de memória as casas de parentes e amigos, sem se fixar em nenhuma. De repente, exclamou:
- Vou pegar-me com Sinhá Rita! Ela manda chamar meu padrinho, diz-lhe que quer que eu saia do seminário... Talvez assim...
Sinhá Rita era uma viúva, querida de João Carneiro; Damião tinha umas ideias vagas dessa situação e tratou de a aproveitar. Onde morava? Estava tão atordoado, que só daí a alguns minutos é que lhe acudiu a casa; era no Largo do Capim.
- Santo nome de Jesus! Que é isto? bradou Sinhá Rita, sentando-se na marquesa, onde estava reclinada.
Damião acabava de entrar espavorido; no momento de chegar à casa, vira passar um padre, e deu um empurrão à porta, que por fortuna não estava fechada a chave nem ferrolho. Depois de entrar espiou pela rótula, a ver o padre. Este não deu por ele e ia andando.
- Mas que é isto, Sr. Damião? bradou novamente a dona da casa, que só agora o conhecera. Que vem fazer aqui?
Damião, trêmulo, mal podendo falar, disse que não tivesse medo, não era nada; ia explicar tudo.
- Descanse, e explique-se.
- Já lhe digo; não pratiquei nenhum crime, isso juro, mas espere. (...)
Afinal, Damião contou tudo, o desgosto que lhe dava o seminário; estava certo de que não podia ser bom padre; falou com paixão, pediu-lhe que o salvasse.
- Como assim? Não posso nada. (...)
- Pode muito, Sinhá Rita; peço-lhe pelo amor de Deus, pelo que a senhora tiver de mais sagrado, por alma de seu marido, salve-me da morte, porque eu mato-me, se voltar para aquela casa.
(ASSIS, Machado de. 50 contos. São Paulo: Companhia da Letras. 2007)
Damião acabava de entrar espavorido; no momento de chegar à casa, vira passar um padre, e deu um empurrão à porta, que por fortuna não estava fechada a chave nem ferrolho. Depois de entrar espiou pela rótula, a ver o padre. (8º parágrafo)
No trecho acima, o narrador relata alguns fatos ocorridos no passado. Um fato anterior a esse tempo passado está indicado pela seguinte forma verbal:
- Aestava.
- Bvira. (alternativa correta)
- Cespiou.
- Dacabava.
- Edeu.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
O pretérito mais-que-perfeito é o tempo verbal usado para indicar uma ação que ocorreu antes de outra ação também passada, estabelecendo uma anterioridade no tempo.
- (A) Incorreta: "estava" é pretérito imperfeito, indicando uma ação contínua ou um estado no passado, simultâneo ou de fundo em relação a outra ação passada, mas não anterior a ela.
- (B) Correta: "vira" é a forma simples do pretérito mais-que-perfeito do verbo "ver" (equivalente a "tinha visto"). Indica que Damião viu o padre antes de entrar e dar o empurrão, sendo um fato anterior aos demais eventos passados narrados.
- (C) Incorreta: "espiou" é pretérito perfeito simples, indicando uma ação pontual e concluída no passado, que ocorre depois de Damião entrar.
- (D) Incorreta: "acabava" (parte da locução "acabava de entrar") é pretérito imperfeito, descrevendo uma ação que estava acontecendo ou que tinha acabado de ocorrer no passado, mas não necessariamente anterior a todos os outros fatos passados mencionados. A armadilha aqui é que "acabava de entrar" marca o início da cena principal, mas "vira" (ver o padre) aconteceu antes mesmo de ele acabar de entrar.
- (E) Incorreta: "deu" é pretérito perfeito simples, indicando uma ação pontual e concluída no passado, que ocorre no momento da entrada de Damião, depois de ele ter visto o padre.
Fonte: FCC TRT-12 2023 Técnico Judiciário - Área Administrativa - Especialidade Agente da Polícia Judicial (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.