Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-12 2023 (nº 2)
Atenção: Leia o trecho do conto "Caso da vara", de Machado de Assis, para responder às questões de números 1 a 10.
Damião fugiu do seminário às onze horas da manhã de uma sexta-feira de agosto. Não sei bem o ano, foi antes de 1850. Passados alguns minutos parou vexado; não contava com o efeito que produzia nos olhos da outra gente aquele seminarista que ia espantado, medroso, fugitivo. Desconhecia as ruas, andava e desandava, finalmente parou. Para onde iria? Para casa, não, lá estava o pai que o devolveria ao seminário, depois de um bom castigo. Não assentara no ponto de refúgio, porque a saída estava determinada para mais tarde; uma circunstância fortuita a apressou. Para onde iria? Lembrou-se do padrinho, João Carneiro, mas o padrinho era um moleirão sem vontade, que por si só não faria coisa útil. Foi ele que o levou ao seminário e o apresentou ao reitor:
- Trago-lhe o grande homem que há de ser, disse ele ao reitor.
- Venha, acudiu este, venha o grande homem, contanto que seja também humilde e bom. A verdadeira grandeza é chã. Moço...
Tal foi a entrada. Pouco tempo depois fugiu o rapaz ao seminário. Aqui o vemos agora na rua, espantado, incerto, sem atinar com refúgio nem conselho; percorreu de memória as casas de parentes e amigos, sem se fixar em nenhuma. De repente, exclamou:
- Vou pegar-me com Sinhá Rita! Ela manda chamar meu padrinho, diz-lhe que quer que eu saia do seminário... Talvez assim...
Sinhá Rita era uma viúva, querida de João Carneiro; Damião tinha umas ideias vagas dessa situação e tratou de a aproveitar. Onde morava? Estava tão atordoado, que só daí a alguns minutos é que lhe acudiu a casa; era no Largo do Capim.
- Santo nome de Jesus! Que é isto? bradou Sinhá Rita, sentando-se na marquesa, onde estava reclinada.
Damião acabava de entrar espavorido; no momento de chegar à casa, vira passar um padre, e deu um empurrão à porta, que por fortuna não estava fechada a chave nem ferrolho. Depois de entrar espiou pela rótula, a ver o padre. Este não deu por ele e ia andando.
- Mas que é isto, Sr. Damião? bradou novamente a dona da casa, que só agora o conhecera. Que vem fazer aqui?
Damião, trêmulo, mal podendo falar, disse que não tivesse medo, não era nada; ia explicar tudo.
- Descanse, e explique-se.
- Já lhe digo; não pratiquei nenhum crime, isso juro, mas espere. (...)
Afinal, Damião contou tudo, o desgosto que lhe dava o seminário; estava certo de que não podia ser bom padre; falou com paixão, pediu-lhe que o salvasse.
- Como assim? Não posso nada. (...)
- Pode muito, Sinhá Rita; peço-lhe pelo amor de Deus, pelo que a senhora tiver de mais sagrado, por alma de seu marido, salve-me da morte, porque eu mato-me, se voltar para aquela casa.
(ASSIS, Machado de. 50 contos. São Paulo: Companhia da Letras. 2007)
A voz do personagem mescla-se à voz do narrador, configurando o chamado discurso indireto livre, no seguinte trecho:
- ADepois de entrar espiou pela rótula, a ver o padre. Este não deu por ele e ia andando. (8º parágrafo)
- BDesconhecia as ruas, andava e desandava, finalmente parou. Para onde iria? (1º parágrafo) (alternativa correta)
- C- Mas que é isto, Sr. Damião? bradou novamente a dona da casa, que só agora o conhecera. (9º parágrafo)
- DDamião fugiu do seminário às onze horas da manhã de uma sexta-feira de agosto. Não sei bem o ano, foi antes de 1850. (1º parágrafo)
- E- Trago-lhe o grande homem que há de ser, disse ele ao reitor. (2º parágrafo)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
O discurso indireto livre é uma técnica narrativa onde a voz do narrador se mistura com os pensamentos ou falas de um personagem, sem usar aspas ou verbos introdutórios explícitos (como "ele pensou que" ou "ele disse que"). O leitor percebe que são os sentimentos ou ideias do personagem, mas apresentados na terceira pessoa e no tempo verbal da narração.
- (A) Incorreta: Este trecho é pura narração, descrevendo as ações de Damião e do padre. Não há uma mescla da voz do personagem com a do narrador para expressar um pensamento ou sentimento interno de Damião.
- (B) Correta: A frase "Para onde iria?" representa uma pergunta que Damião faz a si mesmo, um pensamento interno. Ela é apresentada na terceira pessoa ("iria") e sem aspas ou verbos de elocução, mesclando a voz do personagem (sua dúvida) com a voz do narrador, que a transmite diretamente.
- (C) Incorreta: Este é um exemplo claro de discurso direto, pois a fala da personagem Sinhá Rita é reproduzida literalmente, entre aspas, e introduzida por um verbo de elocução ("bradour").
- (D) Incorreta: Este trecho é narração pura, onde o narrador apresenta fatos sobre Damião e faz um comentário pessoal ("Não sei bem o ano"), sem que haja uma fusão com o pensamento de Damião.
- (E) Incorreta: Este também é um exemplo de discurso direto, com a fala do padrinho reproduzida exatamente como dita, entre aspas, e introduzida por um verbo de elocução ("disse"). A armadilha para o aluno que não domina o conceito pode ser confundir qualquer fala ou pensamento do personagem com o discurso indireto livre, mas a presença das aspas e do verbo introdutório o classifica como discurso direto.
Fonte: FCC TRT-12 2023 Técnico Judiciário - Área Administrativa - Especialidade Agente da Polícia Judicial (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.