Questão nº 8

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-12 2023 (nº 8)

FCC2023Técnico Judiciário - Área Administrativa - Especialidade Agente da Polícia JudicialLíngua Portuguesa
Gabarito: Ever comentário ↓

Atenção: Leia o trecho do conto "Caso da vara", de Machado de Assis, para responder às questões de números 1 a 10.

  1. Damião fugiu do seminário às onze horas da manhã de uma sexta-feira de agosto. Não sei bem o ano, foi antes de 1850. Passados alguns minutos parou vexado; não contava com o efeito que produzia nos olhos da outra gente aquele seminarista que ia espantado, medroso, fugitivo. Desconhecia as ruas, andava e desandava, finalmente parou. Para onde iria? Para casa, não, lá estava o pai que o devolveria ao seminário, depois de um bom castigo. Não assentara no ponto de refúgio, porque a saída estava determinada para mais tarde; uma circunstância fortuita a apressou. Para onde iria? Lembrou-se do padrinho, João Carneiro, mas o padrinho era um moleirão sem vontade, que por si só não faria coisa útil. Foi ele que o levou ao seminário e o apresentou ao reitor:

    • Trago-lhe o grande homem que há de ser, disse ele ao reitor.
    • Venha, acudiu este, venha o grande homem, contanto que seja também humilde e bom. A verdadeira grandeza é chã. Moço...
  2. Tal foi a entrada. Pouco tempo depois fugiu o rapaz ao seminário. Aqui o vemos agora na rua, espantado, incerto, sem atinar com refúgio nem conselho; percorreu de memória as casas de parentes e amigos, sem se fixar em nenhuma. De repente, exclamou:

    • Vou pegar-me com Sinhá Rita! Ela manda chamar meu padrinho, diz-lhe que quer que eu saia do seminário... Talvez assim...
  3. Sinhá Rita era uma viúva, querida de João Carneiro; Damião tinha umas ideias vagas dessa situação e tratou de a aproveitar. Onde morava? Estava tão atordoado, que só daí a alguns minutos é que lhe acudiu a casa; era no Largo do Capim.

    • Santo nome de Jesus! Que é isto? bradou Sinhá Rita, sentando-se na marquesa, onde estava reclinada.
  4. Damião acabava de entrar espavorido; no momento de chegar à casa, vira passar um padre, e deu um empurrão à porta, que por fortuna não estava fechada a chave nem ferrolho. Depois de entrar espiou pela rótula, a ver o padre. Este não deu por ele e ia andando.

    • Mas que é isto, Sr. Damião? bradou novamente a dona da casa, que só agora o conhecera. Que vem fazer aqui?
  5. Damião, trêmulo, mal podendo falar, disse que não tivesse medo, não era nada; ia explicar tudo.

    • Descanse, e explique-se.
    • Já lhe digo; não pratiquei nenhum crime, isso juro, mas espere. (...)
  6. Afinal, Damião contou tudo, o desgosto que lhe dava o seminário; estava certo de que não podia ser bom padre; falou com paixão, pediu-lhe que o salvasse.

    • Como assim? Não posso nada. (...)
    • Pode muito, Sinhá Rita; peço-lhe pelo amor de Deus, pelo que a senhora tiver de mais sagrado, por alma de seu marido, salve-me da morte, porque eu mato-me, se voltar para aquela casa.

(ASSIS, Machado de. 50 contos. São Paulo: Companhia da Letras. 2007)


Damião, trêmulo, mal podendo falar, disse que não tivesse medo (10º parágrafo)

Transpondo o trecho acima para o discurso direto, o verbo da fala de Damião assume a seguinte forma:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa E

Para transpor um trecho do discurso indireto para o discurso direto, você precisa "trazer de volta" a fala original, como se o personagem estivesse falando naquele exato momento. Isso significa ajustar os tempos verbais para o presente ou para o passado mais próximo, dependendo do contexto da fala original.

  • (A) Incorreta: "teria" é futuro do pretérito, indicando uma ação hipotética no passado, o que não se encaixa na fala direta e imediata de Damião.
  • (B) Incorreta: "tivera" é pretérito mais-que-perfeito, usado para ações passadas anteriores a outra ação passada, o que não é o caso aqui.
  • (C) Incorreta: "teve" é pretérito perfeito, indicando uma ação concluída no passado. Embora possível em alguns contextos, a forma mais direta e imperativa da fala de Damião, pedindo para que ela não tenha medo, se expressa melhor com o presente do subjuntivo.
  • (D) Incorreta: "tinha" é pretérito imperfeito. Na fala direta, Damião não estaria descrevendo uma ação contínua no passado, mas sim fazendo um pedido imediato.
  • (E) Correta: "tenha" é o presente do subjuntivo. Na fala direta, Damião estaria dizendo algo como: "Não tenha medo!". O discurso indireto "disse que não tivesse medo" (pretérito imperfeito do subjuntivo) é a transposição correta do presente do subjuntivo para o discurso indireto quando o verbo principal está no passado. Ao voltar para o discurso direto, o verbo retorna à sua forma original no presente do subjuntivo. A armadilha da banca está em confundir o tempo verbal no discurso indireto com o tempo verbal que deve ser usado no discurso direto.

Fonte: FCC TRT-12 2023 Técnico Judiciário - Área Administrativa - Especialidade Agente da Polícia Judicial (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.

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