Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-12 2023 (nº 4)
Atenção: Leia o trecho do conto "Caso da vara", de Machado de Assis, para responder às questões de números 1 a 10.
Damião fugiu do seminário às onze horas da manhã de uma sexta-feira de agosto. Não sei bem o ano, foi antes de 1850. Passados alguns minutos parou vexado; não contava com o efeito que produzia nos olhos da outra gente aquele seminarista que ia espantado, medroso, fugitivo. Desconhecia as ruas, andava e desandava, finalmente parou. Para onde iria? Para casa, não, lá estava o pai que o devolveria ao seminário, depois de um bom castigo. Não assentara no ponto de refúgio, porque a saída estava determinada para mais tarde; uma circunstância fortuita a apressou. Para onde iria? Lembrou-se do padrinho, João Carneiro, mas o padrinho era um moleirão sem vontade, que por si só não faria coisa útil. Foi ele que o levou ao seminário e o apresentou ao reitor:
- Trago-lhe o grande homem que há de ser, disse ele ao reitor.
- Venha, acudiu este, venha o grande homem, contanto que seja também humilde e bom. A verdadeira grandeza é chã. Moço...
Tal foi a entrada. Pouco tempo depois fugiu o rapaz ao seminário. Aqui o vemos agora na rua, espantado, incerto, sem atinar com refúgio nem conselho; percorreu de memória as casas de parentes e amigos, sem se fixar em nenhuma. De repente, exclamou:
- Vou pegar-me com Sinhá Rita! Ela manda chamar meu padrinho, diz-lhe que quer que eu saia do seminário... Talvez assim...
Sinhá Rita era uma viúva, querida de João Carneiro; Damião tinha umas ideias vagas dessa situação e tratou de a aproveitar. Onde morava? Estava tão atordoado, que só daí a alguns minutos é que lhe acudiu a casa; era no Largo do Capim.
- Santo nome de Jesus! Que é isto? bradou Sinhá Rita, sentando-se na marquesa, onde estava reclinada.
Damião acabava de entrar espavorido; no momento de chegar à casa, vira passar um padre, e deu um empurrão à porta, que por fortuna não estava fechada a chave nem ferrolho. Depois de entrar espiou pela rótula, a ver o padre. Este não deu por ele e ia andando.
- Mas que é isto, Sr. Damião? bradou novamente a dona da casa, que só agora o conhecera. Que vem fazer aqui?
Damião, trêmulo, mal podendo falar, disse que não tivesse medo, não era nada; ia explicar tudo.
- Descanse, e explique-se.
- Já lhe digo; não pratiquei nenhum crime, isso juro, mas espere. (...)
Afinal, Damião contou tudo, o desgosto que lhe dava o seminário; estava certo de que não podia ser bom padre; falou com paixão, pediu-lhe que o salvasse.
- Como assim? Não posso nada. (...)
- Pode muito, Sinhá Rita; peço-lhe pelo amor de Deus, pelo que a senhora tiver de mais sagrado, por alma de seu marido, salve-me da morte, porque eu mato-me, se voltar para aquela casa.
(ASSIS, Machado de. 50 contos. São Paulo: Companhia da Letras. 2007)
A expressão sublinhada em Pouco tempo depois fugiu o rapaz ao seminário (4º parágrafo) exerce a mesma função sintática daquela sublinhada em:
- AEste não deu por ele (8º parágrafo) (alternativa correta)
- BNão posso nada (14º parágrafo)
- CA verdadeira grandeza é chã (3º parágrafo)
- DDesconhecia as ruas (1º parágrafo)
- ENão assentara no ponto de refúgio (1º parágrafo)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Para identificar a função sintática de uma expressão, primeiro encontre o verbo e pergunte "quem?" ou "o que?" antes do verbo para achar o sujeito (quem pratica ou sofre a ação). Se a pergunta for "o que?" ou "quem?" depois do verbo, sem preposição, você encontra o objeto direto.
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Na frase original "Pouco tempo depois fugiu o rapaz ao seminário", o verbo é "fugiu". Quem fugiu? O rapaz. Portanto, "o rapaz" é o sujeito.
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(A) Correta: Em "Este não deu por ele", o verbo é "deu por" (percebeu). Quem não deu por ele? "Este". Logo, "Este" é o sujeito, assim como "o rapaz" na frase original.
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(B) Incorreta: Em "Não posso nada", o verbo é "posso". O que não posso? "nada". "nada" é o objeto direto.
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(C) Incorreta: Em "A verdadeira grandeza é chã", o verbo "é" é de ligação. "chã" é uma característica do sujeito "a verdadeira grandeza", sendo, portanto, um predicativo do sujeito.
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(D) Incorreta: Em "Desconhecia as ruas", o verbo é "desconhecia". O que desconhecia? "as ruas". "as ruas" é o objeto direto. A armadilha aqui é que "as ruas" está na posição que um sujeito poderia ocupar em outras frases, mas, neste caso, é o alvo da ação de "desconhecer".
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(E) Incorreta: Em "Não assentara no ponto de refúgio", "Não" é um advérbio que indica negação, funcionando como adjunto adverbial de negação.
Fonte: FCC TRT-12 2023 Técnico Judiciário - Área Administrativa - Especialidade Agente da Polícia Judicial (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.