Questão nº 8
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-1 2025 (nº 8)
O individualismo e as instituições
Quando as instituições são frágeis e não funcionam, podem prevalecer as amarras da prepotência e do oportunismo violento. Na falta de normas legais que funcionem, na falta de uma representação atuante e legítima do Estado na vida social, a condição da "terra sem lei" tende à barbárie.
Exemplo disso forneceu o cinema norte-americano quando, em meados do século passado, inundou o mundo e a imaginação popular com filmes do gênero "western", supostos documentários da conquista do oeste. Uma situação padrão era representada nesses filmes: na pequena e remota cidade recém-formada, o poder local era manipulado por malfeitores poderosos, que submetiam aos seus interesses o xerife e a o juiz. A "lei" servia assim de fachada para o império da autocracia e do crime, e a impunidade ameaçava ser eterna.
Mas eis que chegava o "mocinho": um homem vindo não se sabe de onde, solitário, lacônico, hábil no manejo das armas, intrépido, capaz de enfrentar e derrotar sozinho os poderosos locais — o que fazia com bravura e frieza, até deixar a cidade pacificada e sumir para sempre no horizonte, sob o olhar dos cidadãos agradecidos.
A "mensagem" desses filmes? Haveria, dentro de indivíduos especiais, um impulso natural para a justiça e a virtude, capaz de mudar a ordem das coisas. As virtudes inatas dessa liderança singular refundariam as instituições suprimidas. A figura de um herói solitário estaria na base da legitimação da ordem pública, quando esta fosse comprometida. Não deixa de ser uma forma de atribuir a uma liderança pessoal a missão de promover as instituições que tenham por escopo o bem público. Dito de outro modo: a moralidade desejável das instituições sociais já estaria presente, em gérmen, no indivíduo essencialmente virtuoso, capaz de reconduzir uma comunidade a um patamar da civilização.
(Bruno Rosa de Alcântara, a editar)
Constitui-se um paradoxo na seguinte formulação:
- Aa virtude solitária está na raiz da concepção do "mocinho" do cinema.
- Ba saga dos mocinhos do cinema norte-americano supõe um padrão de conduta.
- Csendo frágeis as instituições, prevalecem as amarras da prepotência.
- Dnos primeiros povoados predominava a manipulação dos poderes.
- Eum voluntarismo pessoal propicia a ordenação dos interesses públicos. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Um paradoxo é uma afirmação que parece contraditória ou absurda, mas que, ao ser analisada, revela uma verdade ou um sentido profundo. É uma contradição aparente que esconde uma realidade.
- (A) Incorreta: Esta frase é uma descrição direta do "mocinho" conforme o texto, que o retrata como um indivíduo com virtudes inatas agindo sozinho. Não há contradição aparente ou profunda aqui.
- (B) Incorreta: Esta é uma constatação sobre o gênero cinematográfico, que de fato apresenta um modelo repetitivo de comportamento para o herói. Não representa uma contradição.
- (C) Incorreta: Esta é uma relação de causa e efeito apresentada no texto ("Quando as instituições são frágeis e não funcionam, podem prevalecer as amarras da prepotência e do oportunismo violento"). Não é um paradoxo, mas uma consequência lógica.
- (D) Incorreta: Esta é uma descrição da situação inicial nos filmes de faroeste, onde "o poder local era manipulado por malfeitores poderosos". É uma afirmação factual dentro do contexto narrado, sem contradição.
- (E) Correta: O paradoxo reside na ideia de que a "ordenação dos interesses públicos" (que deveria ser função de instituições sólidas e coletivas) é alcançada por um "voluntarismo pessoal" (a ação solitária e individual do herói). É contraditório que a ordem pública e institucional seja restabelecida por um impulso puramente individual e não institucional, mas o texto apresenta essa como a "mensagem" dos filmes, revelando uma verdade sobre a crença na liderança pessoal em detrimento das instituições.
Fonte: FCC TRT-1 2025 Analista Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Biblioteconomia (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.