Questão nº 10
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF4 2019 (nº 10)
Seis de janeiro, Epifania ou Dia de Reis (em referência aos reis magos), fecha o ciclo natalino que, entre os romanos, festejava o renascimento do sol depois do solstício de inverno (o dia mais curto do ano).
Era uma festa de invocação do sol, pelo fim das noites invernais. Durante esses festejos pagãos, os papéis sociais se confundiam. Havia troca de presentes e de identidades. O escravo assumia o lugar de senhor, o homem se vestia de mulher − como se, para agradar à natureza, tivéssemos de reconhecer a arbitrariedade das convenções culturais.
Nesse intervalo de poucos dias, o homem aceitava como natural o que por convenção as relações sociais e de poder não permitiam. Ameaçado pelos caprichos da natureza, reconhecia que as coisas são mais complexas do que estamos dispostos a ver.
É plausível que Shakespeare tenha escrito “Noite de Reis”, segundo Harold Bloom sua comédia mais bem-sucedida, pensando nessa carnavalização solar, para comemorar a Epifania. A peça conta a história de Viola e Sebastian, gêmeos que naufragam ao largo do que hoje seria Croácia, Montenegro ou Albânia, e que no texto se chama Ilíria. Viola acredita que o irmão se afogou. Ao oferecer seus serviços ao duque de Ilíria, ela se disfarça de homem, assumindo o nome de Cesário. É o suficiente para pôr em andamento uma comédia de erros na qual as identidades serão confrontadas com a relatividade das nossas convicções.
O sentido irônico do subtítulo da peça − “o que bem quiserem ou desejarem” − dá a entender que os desejos desafiam as convenções que os encobrem. As convenções se modificam conforme a necessidade. Os desejos as contradizem. Identidade e desejo são muitas vezes incompatíveis.
É o que reivindica a filósofa Rosi Braidotti. Braidotti critica a banalização dos discursos identitários, uma incapacidade de lidar com a complexidade, análoga às soluções simplistas que certos discursos contrapõem às contradições. Diante da complexidade, é natural seguir a ilusão das respostas mais simples.
Sob a graça da comédia, Shakespeare trata da fluidez das identidades. Epifania tem a ver com a luz, com o entendimento e a compreensão. Mas para voltar a ver e compreender é preciso admitir que as contradições são parte constitutiva do mundo. A democracia, em sua imperfeição e irrealização permanentes, depende disso.
(Adaptado de: CARVALHO, Bernardo. Disponível em: www1.folha.uol.com.br)
Depreende-se do contexto que a filósofa Rosi Braidotti, mencionada no 6º parágrafo,
- Alança dúvida sobre a noção de que identidade e desejo possam ser conciliados.
- Bincentiva a busca de respostas simples para problemas intrincados.
- Ccritica a simplificação de questões identitárias complexas. (alternativa correta)
- Dconsidera ilusória a complexidade dos discursos identitários.
- Edefende a ideia de que ao discurso devem corresponder ações práticas.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Para responder corretamente, é preciso localizar e interpretar a parte do texto que se refere à filósofa Rosi Braidotti, especificamente o que ela "critica".
- A) Incorreta: Embora o parágrafo anterior mencione a incompatibilidade entre identidade e desejo, a crítica explícita de Braidotti, conforme o texto, é sobre a banalização dos discursos identitários, não diretamente sobre a conciliação de identidade e desejo.
- B) Incorreta: O texto afirma que é "natural seguir a ilusão das respostas mais simples", mas isso é uma constatação do autor sobre uma tendência humana, não um incentivo de Braidotti. Pelo contrário, ela critica a incapacidade de lidar com a complexidade.
- (C) Correta: O texto afirma que "Braidotti critica a banalização dos discursos identitários, uma incapacidade de lidar com a complexidade, análoga às soluções simplistas". Isso se encaixa perfeitamente na ideia de criticar a simplificação de questões identitárias complexas.
- D) Incorreta: A filósofa critica a incapacidade de lidar com a complexidade, o que implica que a complexidade é real e não ilusória. A "ilusão" mencionada no texto refere-se às "respostas mais simples", não à complexidade em si.
- E) Incorreta: O texto não faz nenhuma menção à relação entre discurso e ações práticas na crítica de Rosi Braidotti.
Fonte: FCC TRF4 2019 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.