Questão nº 9
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF4 2019 (nº 9)
Seis de janeiro, Epifania ou Dia de Reis (em referência aos reis magos), fecha o ciclo natalino que, entre os romanos, festejava o renascimento do sol depois do solstício de inverno (o dia mais curto do ano).
Era uma festa de invocação do sol, pelo fim das noites invernais. Durante esses festejos pagãos, os papéis sociais se confundiam. Havia troca de presentes e de identidades. O escravo assumia o lugar de senhor, o homem se vestia de mulher − como se, para agradar à natureza, tivéssemos de reconhecer a arbitrariedade das convenções culturais.
Nesse intervalo de poucos dias, o homem aceitava como natural o que por convenção as relações sociais e de poder não permitiam. Ameaçado pelos caprichos da natureza, reconhecia que as coisas são mais complexas do que estamos dispostos a ver.
É plausível que Shakespeare tenha escrito “Noite de Reis”, segundo Harold Bloom sua comédia mais bem-sucedida, pensando nessa carnavalização solar, para comemorar a Epifania. A peça conta a história de Viola e Sebastian, gêmeos que naufragam ao largo do que hoje seria Croácia, Montenegro ou Albânia, e que no texto se chama Ilíria. Viola acredita que o irmão se afogou. Ao oferecer seus serviços ao duque de Ilíria, ela se disfarça de homem, assumindo o nome de Cesário. É o suficiente para pôr em andamento uma comédia de erros na qual as identidades serão confrontadas com a relatividade das nossas convicções.
O sentido irônico do subtítulo da peça − “o que bem quiserem ou desejarem” − dá a entender que os desejos desafiam as convenções que os encobrem. As convenções se modificam conforme a necessidade. Os desejos as contradizem. Identidade e desejo são muitas vezes incompatíveis.
É o que reivindica a filósofa Rosi Braidotti. Braidotti critica a banalização dos discursos identitários, uma incapacidade de lidar com a complexidade, análoga às soluções simplistas que certos discursos contrapõem às contradições. Diante da complexidade, é natural seguir a ilusão das respostas mais simples.
Sob a graça da comédia, Shakespeare trata da fluidez das identidades. Epifania tem a ver com a luz, com o entendimento e a compreensão. Mas para voltar a ver e compreender é preciso admitir que as contradições são parte constitutiva do mundo. A democracia, em sua imperfeição e irrealização permanentes, depende disso.
(Adaptado de: CARVALHO, Bernardo. Disponível em: www1.folha.uol.com.br)
É plausível que Shakespeare tenha escrito “Noite de Reis” [...] para comemorar a Epifania. A peça conta a história de Viola e Sebastian, gêmeos que naufragam ao largo do que hoje seria Croácia, Montenegro ou Albânia... (4º parágrafo)
Está correta a redação da seguinte frase, em que se contemplam as principais ideias do segmento transcrito acima:
- AAdmite-se que “Noite de Reis”, de Shakespeare, em cuja a peça se conta a história dos gêmeos, Viola e Sebastian, que naufragam ao largo do que hoje seria Croácia, Montenegro ou Albânia, fora escrita em comemoração à Epifania.
- BA peça “Noite de Reis”, em que se conta a história dos gêmeos Viola e Sebastian, naufragados ao largo do que hoje seria Croácia, Montenegro ou Albânia, pode ter sido escrita por Shakespeare em comemoração da Epifania. (alternativa correta)
- CA fim de comemorar a Epifania, conforme se atesta, Shakespeare escreveu “Noite de Reis”, peça à qual revela a história dos gêmeos Viola e Sebastian naufragando ao largo do que hoje seria Croácia, Montenegro ou Albânia.
- DA partir da presunção de que Shakespeare escrevera “Noite de Reis” em comemoração à Epifania, têm-se, na peça, a história dos gêmeos Viola e Sebastian cujo naufrágio se deu ao largo do que hoje seria Croácia, Montenegro ou Albânia.
- EConforme se atribui à Shakespeare a comemoração da Epifania por meio da peça “Noite de Reis”, em que conta-se a história dos gêmeos Viola e Sebastian, que naufragam ao largo do que hoje seria Croácia, Montenegro ou Albânia.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
A reescrita de trechos exige que se mantenha o sentido original, a clareza e a correção gramatical, mesmo utilizando palavras e estruturas diferentes. O objetivo é expressar a mesma ideia sem alterar a informação principal ou a nuance transmitida.
A) Incorreta: A expressão "em cuja a peça" está incorreta. O pronome relativo "cuja" já inclui a ideia de posse ou relação ("da qual a peça"), tornando o artigo "a" redundante e gramaticalmente inaceitável após "cuja". O correto seria "em cuja peça". Além disso, "fora escrita" (pretérito mais-que-perfeito simples) sugere uma certeza maior do que a "plausibilidade" do original.
B) Correta: Esta alternativa mantém o sentido de possibilidade ("pode ter sido escrita" equivale a "É plausível que tenha escrito") e a informação sobre o conteúdo da peça ("em que se conta a história dos gêmeos Viola e Sebastian, naufragados"). A construção "naufragados ao largo" é uma forma concisa e correta de descrever a situação dos gêmeos, equivalente a "que naufragam". A frase é gramaticalmente impecável e fiel ao original.
C) Incorreta: A expressão "conforme se atesta" altera o sentido de "plausível" (possibilidade) para "atestado" (fato comprovado), o que não corresponde ao texto original. Além disso, "peça à qual revela" é gramaticalmente incorreto; o verbo "revelar" é transitivo direto neste contexto, então o correto seria "peça que revela" ou "peça na qual se revela".
D) Incorreta: A construção "A partir da presunção de que Shakespeare escrevera" é excessivamente rebuscada e menos direta que o original. O verbo "escrevera" (pretérito mais-que-perfeito simples) também não transmite a ideia de plausibilidade. A principal armadilha aqui é a concordância verbal em "têm-se, na peça, a história": o verbo "ter" está no plural ("têm-se"), mas o sujeito ("a história") é singular. O correto seria "tem-se".
E) Incorreta: A frase "Conforme se atribui à Shakespeare a comemoração" é semanticamente estranha e altera a ideia original de que Shakespeare escreveu a peça para comemorar. A maior armadilha é a colocação pronominal em "em que conta-se". Em português formal, após um pronome relativo (como "que" ou "em que"), a próclise (pronome antes do verbo) é obrigatória. O correto seria "em que se conta".
Fonte: FCC TRF4 2019 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.